Latim e Direito Constitucional

O cristianismo foi ampliado e investido de uma teologia mais apurada por alguns dos sucessores de Jesus, principalmente pelo apóstolo Paulo (3-66), que era conhecido como Saulo.

Embora de nacionalidade judaica, não era natural da Palestina. Judeu nascido na cidade de Tarso (At 9, 11; 21, 39; 22, 3), no sudeste da Ásia Menor, era ao mesmo tempo cidadão romano (At 16, 37s; 22, 25-28; 23, 27). De início perseguidor dos cristãos, converteu-se mais tarde (At 9) e dedicou suas ilimitadas atividades à propagação da fé por todo o Oriente Próximo conhecido (At 9, 3-19; Gl 1, 12.15s; Ef 3, 2s).

É quase impossível não dar o devido valor à influência do seu trabalho. Negando que Jesus tivesse sido enviado apenas como redentor dos judeus, ele proclamou essa doutrina como religião universal.

Acentuou acima de tudo a ideia de Jesus como o Cristo, como o Deus-Homem ungido, cuja morte na cruz foi uma expiação oferecida pelos pecados da humanidade (1Cor 15, 12-24). Não só rejeitou as obras da lei, ou seja, o ritualismo judaico como sendo de importância primordial na religião, como afirmou serem absolutamente inúteis para o fiel obter a salvação.

Para ele os seres humanos são pecadores por natureza e por isso só podem ser salvos pela fé e pela graça de Deus, mediante a redenção que está em Cristo Jesus. Segue-se, segundo Paulo, que o destino do homem na vida futura depende quase inteiramente da vontade de Deus.

O oleiro não pode formar de sua massa, seja um utensílio para uso nobre, seja outro para uso vil (Rm 9, 21) pois Deus faz misericórdia a quem quer e endurece a quem quer (Rm 9, 18).

Parece certo dizer que Jesus proclamou o advento iminente do reino de Deus, ao passo que Paulo lançou a base para uma religião de salvação pessoal através de Cristo e do ministério da Igreja.

Depois da época de Paulo, o desenvolvimento desse ensinamento foi marcado pela criação de cerimônias ou sacramentos, a fim de trazer o crente para mais próximo de Cristo, e pelo surgimento de uma organização de sacerdotes para ministrar esses sacramentos.

Ao ensinar que os sacerdotes eram imbuídos de poderes sobrenaturais, aos poucos se criou uma distância entre clero e laicato muito mais acentuada do que a existente na maioria das religiões anteriores. Isso veio a ser a base de subsequentes controvérsias no Ocidente e de divisões entre Igreja e Estado.

Mas a ênfase dada para a salvação extraterrena, ministrada por uma organização sacerdotal terrena, contribuiu em muito para que a religião crescesse e viesse a sobressair.

Expandiu-se continuamente nos dois primeiros séculos da era cristã, mas na verdade só começou a florescer no século 3º, considerado, para a história de Roma, como uma era de ansiedade. Numa época de extrema turbulência política e dificuldades econômicas, era compreensível que as pessoas começassem a considerar a vida na terra como uma ilusão e a depositar suas esperanças no além. O corpo humano e o mundo material passaram a ser vistos cada vez mais como um mal ou como basicamente irreais.

Assim, várias religiões salientavam o predomínio, neste mundo, de forças espirituais e a absoluta preeminência de salvação na vida futura. A religião cristã era apenas uma dessas religiões, ao lado do mitraísmo, gnosticismo e dos cultos de Ísis e Serápis.

Embora tomasse de empréstimo elementos de religiões mais antigas, como do judaísmo e do gnosticismo, ela era nova e por isso possuía um senso de dinamismo ausente nas outras religiões salvacionistas que existiam há séculos.

A energia da religião cristã era igualmente realçada, sem dúvida, por seu rigoroso exclusivismo. O fato de exigir que o Deus cristão fosse o único a ser adorado tornava a nova religião atraente, numa época em que as pessoas buscavam valores absolutos com desespero. Igualmente, só ela tinha um sistema geral para explicar o mal na terra, dando como sua causa a obra de demônios governados por Satã.

Não obstante a novidade, o exclusivismo e a teoria do mal tenham contribuído para explicar seu êxito, suas maiores atrações foram a sua doutrina de salvação, suas dimensões sociais e sua estrutura organizacional. Religiões rivais também prometiam uma vida futura, mas a doutrina do cristianismo era a de mais longo alcance.

Proclamando que os ímpios se liquefariam em fornalhas ardentes por toda a eternidade (Mt 5, 29s; Mc 9, 45.47; Lc 12.5) e que os fiéis gozariam bem-aventuranças eternas, os pregadores cristãos faziam muitos prosélitos numa época de temores.

À medida que a religião crescia, ganhava adeptos em todas as classes, graças principalmente à sua organização. No século 3º, já havia uma hierarquia organizada de sacerdotes para dirigir a vida da fé. As congregações cristãs eram comunidades muito coesas que ofereciam serviços a seus membros, como féretros, cuidado de crianças e sustento de desprotegidos, que ultrapassavam preocupações estritamente religiosas.

Os que se tornavam cristãos encontravam calor humano e um sentido de missão, enquanto o resto do mundo parecia desabar à sua volta.

Rio de Janeiro, 1º de junho de 2008.

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