Latim e Direito Constitucional

O principal fato cultural da fase final da história antiga foi a disseminação e o triunfo do cristianismo por todo o mundo romano. A princípio era apenas uma entre várias manifestações da tendência geral no sentido do espiritualismo. Mas no século 4º foi adotado como religião oficial de Roma e, a partir de então, transformou-se numa das maiores forças que plasmaram o desenvolvimento do Ocidente.

À medida que ele se propagava, o império estava declinando, tornando-se fértil campo de cultura para uma nova religião que prometia salvação extraterrena (Mt 10, 22; 16, 25; 24, 13; Mc 8, 35; 13, 13; Lc 9, 24). Tendo começado humildemente, ninguém poderia prever que se transformaria, no ano 380, por decreto, na única religião do Império Romano.

Jesus nasceu em Belém (Mt 2, 1ss; Lc 2, 4ss). Enquanto crescia, a Judeia estava sob forte domínio estrangeiro. A atmosfera do país achava-se carregada de emocionalismo religioso e insatisfação política.

Os fariseus (Lc 18, 10-12) concentravam-se em preservar a lei mosaica e ansiavam pela vinda de um messias político, que libertasse o país de Roma. Os zelotes (At 23, 12-15) desejavam derrubar os forasteiros mediante a luta armada. Os essênios (Is 25, 6; Jr 31, 31-34; Ez 36, 22-28), por sua vez, tinham esperança de libertação espiritual, através do ascetismo, do arrependimento e da união mística com Deus. O ministério de Jesus pendia mais claramente para essa orientação pacífica.

Aos 30 anos, Jesus foi assim aclamado por João Batista: “alguém mais forte do que eu, do qual não sou digno nem ao menos de tirar-lhe as sandálias” (Mt 3, 11; Mc 1, 7; Lc 3, 16; Jo 1, 27). Daí em diante, não parou de pregar, ensinar, curar doentes, expulsar demônios, restaurar a visão aos cegos e ressuscitar os mortos.

Não só denunciava a impostura, a cobiça e a licenciosidade, como acreditava ter a missão de salvar a humanidade do erro e do pecado (Lc 1, 77). Assim, sua pregação e outras atividades despertaram o antagonismo de alguns dos principais sacerdotes e rabinos conservadores, os quais desaprovavam suas referências irônicas ao legalismo dos fariseus (Mt 23, 13; Lc 11, 52), seu desprezo pelas formalidades e cerimônias, seu desdém pela pompa e pelo luxo.

Temendo que sua liderança ativa causasse problemas com os romanos, levaram-no ao mais alto tribunal em Jerusalém, onde foi condenado por blasfêmia (Mt 26, 65; Mc 14, 64) e por arvorar-se em rei dos judeus (Mt 27, 11; Mc 15, 2; Lc 23, 3). Entregue ao governador Pôncio Pilatos para a execução da sentença, morreu na cruz entre dois ladrões, no monte Gólgota, fora de Jerusalém.

Sua crucifixão assinalou um ponto decisivo na história cristã, pois a sua morte foi considerada como o fim de suas esperanças. Ao circularem boatos de que ele estava vivo e que havia sido visto por alguns adeptos mais chegados (Mt 28, 1-10; Mc 16, 1-8; Lc 24, 1-11), o restante dos fiéis convenceu-se logo de que ele ressuscitara dos mortos e que era realmente um ser divino.

Recobrando a coragem, o pequeno grupo reorganizou-se e pôs-se a pregar e a testemunhar em nome de seu chefe martirizado. Nasceu assim uma das grandes religiões do mundo, que acabaria por converter nada menos que o poderoso império de Roma.

Nunca houve um consenso perfeito entre os cristãos quanto aos ensinamentos de Jesus. Os únicos registros dignos de confiança são os quatro evangelhos, sendo que o mais antigo foi escrito por Marcos, entre 64 e 70, depois da morte de Pedro, pelo menos uma geração depois do suplício de Jesus na cruz.

Os seguidores acreditavam que o seu fundador se revelou como o Cristo, o divino Filho de Deus, enviado a este mundo para sofrer e morrer pelos pecados da humanidade (Mc 1, 1; Jo 20, 31). Estavam convictos de que, após três dias no sepulcro, ele ressuscitou dos mortos e subiu aos céus (Mc 16, 19; Lc 24, 50), de onde voltaria para julgar o mundo.

Os evangelhos deixam claro que ele incluiu entre os seus ensinamentos básicos os seguintes: a paternidade de Deus e a fraternidade dos homens; o preceito áureo; o perdão e o amor aos inimigos; pagar o mal com o bem; a obrigação pessoal; a condenação da hipocrisia e da cobiça; a oposição ao cerimonialismo como essência da religião; a iminência do fim do mundo; a ressurreição dos mortos e o estabelecimento do reino dos céus.

Rio de Janeiro, 25 de maio de 2008.

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