Latim e Direito Constitucional

Muitas das realizações da idade moderna dificilmente se teriam concretizado sem as descobertas dos cientistas de Alexandria, Siracusa, Pérgamo e outras grandes cidades do mundo helenístico.

Alexandre, o Grande (356-323 a.C.), havia dado certo estímulo financeiro ao progresso da pesquisa. Além disso, a fusão das ciências caldaica e egípcia com os estudos dos gregos foi incentivo à investigação intelectual. Um terceiro fator possivelmente terá sido o novo interesse pelo luxo e conforto, assim como a exigência de conhecimentos práticos que possibilitassem ao estudioso e pensador científico resolver os problemas de uma existência desordenada e insatisfatória.

As ciências que receberam mais atenção nessa época foram a astronomia, a matemática, a geografia, a medicina e a física. Por outro lado, a química e a biologia não tinham qualquer relação definida com o comércio ou com as formas de indústria então existentes, razão por que não eram consideradas como de grande valor prático.

Aristarco de Samos (310-230 a.C.), o Copérnico antigo, deduziu que a terra e os demais planetas giravam em torno do sol, numa revolucionária tentativa heliocêntrica. Seus sucessores não aceitaram isso, porque conflitava com os ensinamentos de Aristóteles (384/383-322 a.C.) e com a persuasão dos gregos de que o homem (e, portanto, a terra) devia situar-se no centro do universo. Além disso, não se harmonizava com a crença dos judeus e de outros povos europeus, parcela substancial da população helenística.

Hiparco de Nicéia (190-126. a.C.) inventou o astrolábio e o cálculo do diâmetro da lua e da distância entre ela e a terra, assim como lançou os fundamentos da trigonometria plana e esférica. Sua fama, no entanto, foi ofuscada pela reputação de Cláudio Ptolomeu (83-161), que sistematizou o trabalho de outros astrônomos. A sua obra Almagesto, que significa o maior tratado de astronomia, baseada na teoria geocêntrica, ideia de que todos os corpos celestes se movem em torno da terra, passou para a Europa medieval.

Euclides de Alexandria (360-295 a.C.) foi o mestre da geometria; até o século 19, o seu livro Elementos permaneceu como base escrita para o seu estudo. Eratóstenes (276-194 a.C.), geógrafo, executou o mapa mais preciso, com a superfície terrestre dividida entre graus de latitude e de longitude.

Herófilo de Calcedônia (335-280 a.C.) foi o maior anatomista da antiguidade e o primeiro a praticar a dissecação humana. Erasístrato de Chio (310-250 a.C.) foi considerado o fundador da fisiologia como ciência separada.

Antes do século 3º a.C. a física constituía um ramo da filosofia. Arquimedes de Siracusa (287-212 a.C.) a transformou em ciência experimental independente, com a formulação dos princípios da alavanca, da roldana e do parafuso. Dele são as invenções da roldana composta, do parafuso tubular para bombear água, da hélice para embarcações e da lente convexa.

A Héron de Alexandria (10-70 d.C.) são atribuídos uma bomba de incêndio, um sifão, um motor a reação, um órgão hidráulico e uma catapulta acionada por ar comprimido.

A religião cívica dos gregos, tal como existiu no tempo das cidades-estados, já havia desaparecido quase de todo. Para a maioria dos intelectuais, seu lugar foi ocupado pelas filosofias do estoicismo, epicurismo e ceticismo.

O povo tendia a abraçar religiões de emoções. Os mistérios órficos e eleusinos atraíam mais devotos do que nunca. O culto de Ísis, a deusa-mãe egípcia, ameaçou tornar-se dominante no Oriente Próximo. A religião astral dos caldeus propagou-se, e a astrologia foi recebida com entusiasmo fanático em todo o mundo helenístico.

O mitraísmo e o gnosticismo, fé religiosa com votos de salvação numa vida extraterrena, satisfaziam os anseios emocionais do povo, convencido da inutilidade desta vida e disposto a ser aliciado por promessas extravagantes de melhor sorte num mundo vindouro.

Fator importante para essas realidades foi a dispersão, a diáspora, dos judeus. Em consequência da conquista da Palestina por Alexandre, em 332 a.C., e da vitória romana cerca de três séculos depois, milhares de judeus migraram para várias partes do mundo mediterrâneo.

Eles misturavam-se livremente com outros povos, adotando a língua grega. Ao mesmo tempo, desempenharam papel relevante na difusão de convicções íntimas orientais. Alguns dos judeus helenizados acabaram convertendo-se ao cristianismo e constituíram poderoso instrumento para a propagação dessa religião fora da Palestina. Exemplo notável foi Saulo de Tarso, conhecido como Paulo na história cristã (At 22,3).

Rio de Janeiro, 16 de março de 2008.

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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero occidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

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