Latim e Direito Constitucional

A filosofia ética dos epicuristas baseava-se na doutrina de que o mais alto bem é o prazer, nele não incluindo todas as suas formas. Assim, os da carne, por exemplo, deveriam ser evitados, pois o excesso de sensualidade tinha de ser compensado por sua quota de dor. Em sentido negativo ele é a ausência completa de dor para o corpo e de perturbação para a alma.

Entre os deleites existe uma hierarquia: o contentamento em repouso é superior ao no movimento, os da inteligência sobrelevam aos dos sentidos. Isto só pode ser alcançado através da eliminação do medo, principalmente do medo do sobrenatural, fonte suprema da inquietação espiritual. O bem supremo é a tranquilidade do espírito.

Tanto a sua ética como a sua teoria política repousavam numa base utilitária. A única razão pela qual o homem deve ser bom consiste em aumentar sua própria felicidade. Todas as sociedades complexas julgaram haver necessidade de certas normas para a manutenção da segurança e da ordem. Os homens obedecem a essas normas porque é vantajoso para eles assim proceder.

Mais derrotista foi a filosofia proposta pelos céticos, com Carnéades (219-129 a.C.). Partindo da doutrina sofista de que todo o conhecimento se deriva da percepção dos sentidos, daí deduz que nada podemos provar. Se as impressões dos sentidos nos iludem, nenhuma verdade pode ser certa. As coisas parecem ser tais ou quais; não sabemos como realmente são. Não temos nenhum conhecimento categórico do sobrenatural, do significado da vida ou mesmo do certo ou do errado. Só a suspensão do juízo (epoché) pode nos conduzir à felicidade.

Com Filon de Alexandria (25 a.C.-50 d.C.) e os neopitagóricos, no século 1º a.C., a tendência não racional do pensamento helenístico atingiu sua expressão mais extremada. Acreditavam num deus transcendente, tão distante do mundo que era impossível aos mortais conhecê-lo. Concebiam o universo como dividido nitidamente entre espírito e matéria. Consideravam como mau tudo o que era físico e material; a alma está aprisionada no corpo, do qual só pode fugir mediante rigorosa negação e mortificação da carne.

Sua atitude era mística e não intelectual: a verdade não vem da ciência nem da razão, mas da revelação. Filon, judeu que viveu em Alexandria, sustentava que os livros do Antigo Testamento possuíam absoluta autoridade divina e encerravam toda a verdade. O fim último da vida é realizar uma união mística com Deus, abandonar-se ao divino. Tanto esse pensador como os neopitagóricos influenciaram o desenvolvimento da teologia cristã.

Como ainda não havia sido inventada a imprensa, escritos saíam das mãos dos copistas com pouca originalidade ou profundidade de pensamento. Essa literatura helenística é importante pela luz que lança sobre o caráter dessa civilização.

O teatro, gênero dessa literatura, era quase exclusivamente cômico, representado pelas peças de Menandro (342-291 a.C.). Distinguia-se mais pelo naturalismo do que pela sátira, mais com os aspectos desagradáveis da vida do que com questões políticas ou intelectuais.

Teócrito de Siracusa (310-250 a.C.) foi o maior autor de poemas bucólicos. Suas pastorais celebram o encanto da vida campestre e idealizam os poemas simples da gente rústica.

A prosa foi dominada por muitos historiadores, biógrafos e utopistas. Políbio de Megalópolis (203-120 a.C.) superou muitos outros pela compreensão da importância das forças sociais e econômicas. As biografias desfrutaram de tremenda popularidade. As utopias pintavam uma vida de igualdade social e econômica, livre de cobiça, opressão e discórdia, numa ilha imaginária ou em alguma região distante e pouco familiar.

A arte helenística passou a dominar o realismo exagerado, o sensacionalismo e a voluptuosidade – exemplo típico foi o farol de Alexandria –, mas é bom frisar que parte dela caracterizava-se por uma calma, equilíbrio e compaixão pelo sofrimento humano, como a Afrodite de Melos (Vênus de Milo) e a Vitória alada de Samotrácia.
Rio de Janeiro, 09 de março de 2008.

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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero occidentale dalle origini ad oggi, 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

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