Latim e Direito Constitucional

Davi teve como sucessor seu filho Salomão (1Rs 1, 28-40), o último dos reis da monarquia unificada.
Herdeiro oficial de Davi, sua posse foi recheada de intrigas e inimizades. Mas logo que se viu no poder, eliminou drasticamente seus inimigos. Mandou matar seu irmão Adonias (1Rs 2, 25), o general Joab (1Rs 2, 34) e desterrou o sacerdote chefe Abiatar (1Rs 2, 26).

Criou uma corte imensa e dispendiosa. O texto bíblico (1Rs 5, 2-3) conta de seus gastos: um absurdo de cereais e carne.

“Salomão recebia diariamente para seu gasto 30 coros de flor de farinha (1 coro = 450 libras) e 60 de farinha comum, 10 bois cevados, 20 bois de pasto, 100 carneiros, além de veados, gazelas, antílopes, cucos cevados.”

Conforme Ne 5, 18, 150 homens eram alimentados por Neemias diariamente com um boi e seis ovelhas, mais algumas aves. Com base nessa notícia, poder-se-ia imaginar que a corte de Salomão se tenha composto de 3.000 a 4.500 pessoas, uma vez que se consumia 20 a 30 vezes mais carne que o grupo de Neemias. Se acrescentarmos ao consumo a farinha, o número será bem maior.

Novidade na administração foi a divisão do norte em 12 províncias (1Rs 4, 7), desrespeitando a divisão tribal e nomeando prefeitos estranhos às populações locais. Mais: cada província cuidava da manutenção da corte durante um mês (1 Rs, 5, 7).

Seu exército era poderoso na época, e seus carros de combate, temíveis (1Rs 10, 26) – inovação sua, porque Davi só usava a infantaria. A população pagava por esse exército, fornecendo a cevada e a palha para os cavalos e os animais de tração, no lugar onde fosse preciso, e cada qual segundo o seu turno (1Rs 5, 8).

Como consequência das aspirações nacionalistas de tempos posteriores, Salomão tem sido descrito pela tradição hebraica como um dos mais sábios esclarecidos governantes de toda a história (1Rs 5, 10).

Os fatos de sua vida oferecem pouca base para tal crença. Quase tudo o que se pode dizer em seu favor é que foi um diplomata astuto e um ativo protetor do comércio. Construiu uma frota mercante que comerciava até em Ofir (atual Somália) e em todos os portos do Mar Vermelho (1Rs 9, 26), enquanto outra parte fazia a rota do Mediterrâneo até a Espanha. Seus navios eram construídos e tripulados pelos fenícios, mestres na arte da navegação (1Rs 9, 27).

Dominou igualmente o comércio da Arábia, com o controle das caravanas: o comércio de cavalos da Cilícia e do Egito, através de suas agências de compra e venda. Exportava cobre e outros metais.

Toda essa atividade comercial gerou uma expansão interna muito grande no país: cidades que se fortaleciam, construções de grandes obras públicas por toda a parte, a população que aumentava consideravelmente em número.

Em grande parte sua política era opressora, ainda que não deliberadamente, por certo. Ambicionando copiar o luxo e a magnificência de outros déspotas orientais, estabeleceu um harém de 700 esposas e 300 concubinas (1Rs 11, 3) e completou a construção de suntuosos palácios, estábulos para 4.000 cavalos e um dispendioso templo em Jerusalém.

Rio de Janeiro, 23 de dezembro de 2007.

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