Latim e Direito Constitucional

A cultura persa, no sentido estrito de realizações intelectuais e artísticas, derivou em grande parte das civilizações anteriores, ou seja, da Mesopotâmia, do Egito, da Líbia e do norte da Palestina.

A influência mais duradoura transmitida pelos persas foi a da sua religião, altamente desenvolvida, ao iniciarem suas conquistas.

Seu fundador foi Zoroastro, corruptela grega do nome persa Zaratustra, que parece ter vivido pouco antes de 600 a.C. Ele foi o primeiro teólogo verdadeiro da história, ao imaginar um sistema de fé religiosa completamente desenvolvido. Concebia como sendo sua missão purificar os costumes tradicionais de seu povo e elevar o culto a um plano muito espiritual e ético.

O zoroastrismo era dualístico. Dois princípios espirituais regiam o universo. O primeiro, Ahura-Mazda, era infinitamente bom e incapaz de qualquer perversidade, pois personificava os preceitos da luz, da verdade e da retidão. O segundo, Arimã, traiçoeiro e maligno, presidia as forças das sombras e do mal. No último grande dia, Ahura-Mazda derrotaria Arimã e o precipitaria no abismo.

Trata-se de uma religião ética. Apesar de conter sugestões de predestinação, ela repousava no pressuposto de que os homens possuíam livre-arbítrio, eram livres para pecar ou não pecar e seriam compensados ou punidos na vida futura, de acordo com sua conduta na terra.

Essa religião infelizmente não conseguiu permanecer em seu estado original. Foi corrompida pelas superstições, pela magia e pelas ambições do clero, recebendo a influência de crenças de outras terras, o que gerou o pessimismo e o fatalismo.

Dessa síntese emergiu uma profusão de cultos. O mais antigo foi o mitraísmo, nome que se deriva de Mitra, reconhecido mais tarde como o deus merecedor de adoração. Entre suas inovações está a proclamação do domingo como o dia mais sagrado da semana e o dia 25 de dezembro como o mais sagrado do ano. Tudo isso com significado solar, a renovação de suas forças vivificadoras para benefício do homem.

Introduzido em Roma no último século a. C., fazia prosélitos nas classes mais baixas: soldados, estrangeiros e escravos. Mais tarde, tornou-se o principal concorrente do cristianismo e do próprio paganismo romano. Provavelmente, o cristianismo tomou de empréstimo um bom número dos aspectos externos do mitraísmo.

Seu sucessor foi o maniqueísm

Manes ou Mani, sacerdote ilustre de Ecbátana, achava que sua missão na terra seria reformar a religião dominante, mas obteve pequena simpatia em seu próprio país. Depois de sua morte, seus ensinamentos foram levados a todos os países da Ásia ocidental e à Itália, mais ou menos em 330.

O dualismo do zoroastrismo causou profunda impressão em Mani, que lhe deu uma interpretação mais larga. Concebeu um universo dividido em dois reinos, um antítese do outro: o do espírito, dominado por um deus eternamente bom; e o da matéria, sob o domínio de Satã.

Foram diversas as implicações morais desse rigoroso dualismo. Tudo o que se relacionasse com a sensualidade e o desejo seria obra do demônio. Dessa forma, o homem deveria refrear todos os prazeres dos sentidos, abster-se de comer carne, de beber vinho e de satisfazer o desejo carnal.

Reconhecendo a sua austeridade para os mortais comuns, Mani dividiu a raça humana entre perfeitos e ouvintes. Só os primeiros seriam obrigados a submeter-se à norma completa. Para ajudar a humanidade nessa luta, Deus enviava profetas, de tempos em tempos, a fim de confortá-los, tais como Noé, Abraão, Zoroastro, Jesus e Paulo.

Outro culto legado pelos persas foi o gnosticismo, que evoluiu a partir das ideias religiosas gregas. Alcançou o auge da popularidade na segunda metade do século 2º. Sua característica era o misticismo. Os gnósticos consideravam-se os detentores exclusivos de uma secreta sabedoria espiritual, único elemento importante como guia da fé e do procedimento moral.

É enorme a influência desses vários tipos de religiões de origem persa. As mudanças sociais e políticas de época despertaram profunda desilusão e um vago anseio de salvação individual, centralizado nas compensações da vida futura.

Para os historiadores Philip Lee Ralph, Robert E. Lerner e Standish Meacham (World Civilizations, Their History and Their Culture, p. 57. Paperback – Jan. 1997), a herança deixada pelos persas, ainda que não tenha sido exclusivamente religiosa, continha elementos de natureza secular, como a forma de governo adotada posteriormente pelos monarcas romanos, no seu caráter de despotismo de direito divino.

Rio de Janeiro, 02 de dezembro de 2007.

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