Latim e Direito Constitucional

A religião desempenhava um papel predominante na vida dos antigos egípcios, deixando a sua marca sobre quase tudo. A arte, a literatura e a filosofia expressavam esse simbolismo e estavam embebidas de ensinamentos religiosos.

Com a unificação do país no antigo reino, todos os deuses tutelares foram consubstanciados no grande deus solar Rá. No médio reino, essa divindade passou a ser chamada de Amon ou Amon-Rá. As divindades que personificavam as forças produtivas da natureza foram fundidas numa única, chamada de Osíris.

Durante o período do antigo reino, o culto do sol, corporificando a adoração de Rá, foi o sistema dominante de crença. Servia como religião oficial, cuja função principal era dar imortalidade ao estado e ao povo, coletivamente. Rá não era somente um deus tutelar; era também o deus da retidão, da justiça e da verdade, assim como mantenedor da ordem moral do universo. A religião solar não era uma religião para massas.

Osíris personificava o crescimento da vegetação e as forças vivificantes do Nilo. Sua figura estava envolta em complicada lenda. Teria sido um guia benévolo, que ensinava a seu povo a agricultura e outras artes práticas e lhe ditava leis. Morto traiçoeiramente por Set, seu irmão perverso, o seu corpo foi feito em pedaços. Ísis, sua mulher e irmã, pegou os pedaços, juntou-os e milagrosamente lhe restitui vida. O deus ressuscitado recuperou seu reino e continuou seu governo beneficente. Por fim desceu aos infernos, para servir como juiz dos mortos. Hórus, seu filho, vingou a morte do pai, matando Set.

A lenda da morte e ressurreição de Osíris simbolizava a retirada das águas do Nilo no outono e a volta da inundação na primavera. Mais. A solicitude paternal de Osíris pelos súditos e a fiel devoção da mulher e do filho tocavam a sensibilidade do egípcio médio. Como o deus triunfara sobre a morte e a sepultura, também o indivíduo que o seguisse fielmente poderia herdar vida imortal. Finalmente, a vitória de Hórus sobre Set prefigurava o triunfo final do bem sobre o mal.

Com o amadurecimento da religião, acreditava-se que os mortos deveriam comparecer perante Osíris, para serem julgados de acordo com suas ações na terra. Todos os mortos que passassem por esse sistema de julgamento entrariam num reino celestial de gozos físicos e prazeres simples.

No fim do médio reino, o culto solar e o de Osíris tinham-se fundido, para preservar os melhores atributos de ambos. O seu caráter moral é que as pessoas manifestassem seu desejo de praticar a justiça, por ser essa conduta de agrado do grande deus sol.

Após o estabelecimento do império, o seu significado ético foi desvirtuado, ganhando ascendência a superstição e a magia. Os sacerdotes exploravam o terror das massas em proveito próprio. Vendiam feitiços mágicos e fórmulas que facilitariam a entrada dos mortos no reino dos céus. Esse livro dos mortos era uma coleção de inscrições mortuárias.

Essa degradação da religião acabou por levar a uma grande reforma religiosa. Seu chefe foi o faraó Amenotep IV, em 1375 a.C., que destruiu todo o sistema. Expulsou os sacerdotes dos templos, suprimiu dos monumentos públicos os nomes das divindades tradicionais e lançou o culto de um novo deus, a quem chamou Áton, antiga denominação do sol físico. Mudou seu próprio nome, de Amenotep (Amon repousa) para Ikhnaton (Áton está satisfeito). Sua mulher Nefertiti tornou-se Nefernefru-aton, que significa “Bela é a beleza de Áton”.

Mais importante. O faraó reformador ensinou uma religião de monoteísmo restrito. Áton e o próprio Ikhnaton eram os únicos deuses existentes. Áton não possuía nenhuma forma humana ou animal, mas devia ser concebido em termos dos raios do sol, vivificantes e aquecedores. Criador de tudo, portanto deus não só do Egito, mas de todo o universo.

Ikhnaton apresentava-se como herdeiro de Áton, ao lado de quem servia como corregente. Enquanto o faraó e sua mulher adoravam Áton, os demais deveriam adorar Ikhnaton como uma divindade viva.

Não obstante essa idiossincrasia pessoal, Ikhnaton restaurou o caráter ético da religião egípcia, insistindo ser Áton o autor da ordem moral e o recompensador da humanidade pela integridade e pureza do coração.

Infelizmente a religião de Áton ganhou poucos seguidores entre o povo. A massa continuou devotada a seus velhos deuses. Os faraós sucessores restauraram os velhos hábitos de culto. Na visão dos historiadores Philip Lee Ralph, Robert E. Lerner e Standish Meacham (World Civilizations, Their History and Their Culture. p. 29. Paperback – Jan. 1997), o ritualismo e a magia voltaram. Mesmo assim, o culto de Osíris perdeu a maior parte de sua elevada qualidade moral.

Rio de Janeiro, 21 de outubro de 2007.

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