Latim e Direito Constitucional

A mensagem cristã assinalou sem dúvida a mais radical revolução de valores da história humana – usando outras palavras, uma subversão total das valias antigas –, transformação essa cuja formulação pragmática está no Sermão da Montanha, que nos foi transmitido no evangelho de Mateus:

Felizes os pobres no espírito,
porque deles é o Reino dos Céus.
Felizes os mansos,
porque herdarão a terra.
Felizes os aflitos,
porque serão consolados.
Felizes os que têm fome
e sede de justiça,
porque serão saciados.
Felizes os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Felizes os puros no coração,
porque verão a Deus.
Felizes os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
Felizes os que são perseguidos
por causa da justiça,
porque deles é o Reino dos Céus (Mt 5, 1-10).

E no evangelho de Lucas lemos:

Felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus.
Felizes vós, que agora tendes fome, porque sereis saciados.
Felizes vós, que agora chorais, porque haveis de rir.
Felizes sereis quando os homens vos odiarem, quando vos rejeitarem, insultarem e proscreverem vosso nome como infame, por causa do Filho do Homem.
Alegrai-vos naquele dia e exultai, porque no céu será grande a vossa recompensa: pois do mesmo modo seus pais tratavam os profetas.
Mas, ai de vós, ricos, porque já tendes a vossa consolação!
Ai de vós, que agora estais saciados, porque tereis fome!
Ai de vós, que agora rides, porque conhecereis o luto e as lágrimas!
Ai de vós, quando todos vos bendisserem, pois do mesmo modo seus pais tratavam os falsos profetas.

Eu, porém, vos digo, a vós que me escutais: Amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam, bendizei os que vos amaldiçoam, orai por aqueles que vos difamam. A quem te ferir numa face, oferece a outra; a quem te arrebatar o manto, não recuses a túnica (Lc 6, 20-29).

Segundo o novo quadro de importâncias, é preciso retornar à simplicidade e à pureza da criança, porque aquele que é o primeiro segundo o juízo do mundo será o último conforme o juízo de Deus e vice-versa.

Escreve Mateus:

Nessa ocasião, os discípulos aproximaram-se de Jesus e lhe perguntaram: “Quem é o maior no Reino dos Céus?”. Ele chamou perto de si uma criança, colocou-a no meio deles e disse: Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como as crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus. Aquele, portanto, que se tornar pequenino como esta criança, esse é o maior no Reino dos Céus. E aquele que receber uma criança como esta por causa do meu nome recebe a mim (Mt 18,1-5).

E Marcos escreve: “Então ele sentou, chamou os doze e disse: Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos.” (Mc 9, 35).

Desse modo, a humildade tornou-se uma virtude fundamental do cristão: o caminho estreito que dá acesso ao reino dos céus. E essa também era uma virtude desconhecida dos filósofos gregos.
E Cristo chegou a dizer o seguinte: “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois aquele que quiser salvar sua vida a perderá; mas, o que perder sua vida por causa de mim e do evangelho, a salvará.” (Mc 8, 34).

E isso, para o filósofo grego, seria simplesmente incompreensível. Em consequência, cai por terra também o ideal supremo do sábio helenístico que compreendera a verdade do mundo e de todos os bens exteriores e do corpo, mas, no entanto, punha em si a certeza suprema, proclamando-se autárquico e absolutamente autossuficiente, capaz de alcançar sozinho o fim último.

Esse ideal do homem grego, que acreditava em si mesmo mais do que em todas as coisas exteriores com extrema firmeza, fora, indubitavelmente, um nobre ideal.

Mas a mensagem evangélica agora o declara ilusório – e o faz de maneira categórica. A salvação não apenas não pode vir das coisas, nem sequer de si mesmo. Cristo diz: “Sem mim, nada podeis fazer.” (Jo, 15, 5).

Em uma esplêndida passagem da segunda epístola aos coríntios, Paulo sela essa reviravolta no pensamento antigo. Depois de ter suplicado a Deus três vezes, para que dele afastasse uma grave aflição que o atribulava, teve a seguinte resposta: “Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que a força manifesta todo o seu poder.” (2Cor 12, 9). Por isso, Paulo conclui: “Por conseguinte, com todo o ânimo prefiro gloriar-me das minhas fraquezas, para que pouse sobre mim a força de Cristo.” (2Cor, 12, 9).

Rio de Janeiro, 31 de agosto de 2008.

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