Latim e Direito Constitucional

Em Platão, o tema da beleza vincula-se ao do eros e do amor, força que dá asas e eleva, através dos vários graus de beleza, à beleza metaempírica existente em si.

A análise do amor situa-se entre os mais esplêndidos estudos que Platão nos deixou, como se pode ler no diálogo O banquete (Série “Os Pensadores”. São Paulo: Ed. Abril, 1978).

O eros não é Deus nem homem, mas um daqueles seres intermediários entre o homem e Deus. Assim, o amor é filó-sofo, no sentido mais denso do termo. A sophia, ou seja, a sabedoria, é algo que só Deus possui; a ignorância é propriedade do que está totalmente distante da sabedoria; a filo-sofia, ao contrário, é apanágio do que não é ignorante nem sábio, do que não possui o saber mas a ele aspira, do que sempre busca alcançá-lo e, tendo-o atingido, percebe que ele lhe foge novamente para que, como amante, continue a procurá-lo.

O termo grego eros significa a paixão de desejo sexual. A palavra philia designa primordialmente o amor de amizade. O substantivo ágape foi escolhido para designar a ideia cristã única e original do amor. E caridade é usada para mostrar o caráter único deste amor. Assim o eros grego é força de conquista e ascensão, que se acende sobretudo à luz da beleza.

Já o novo conceito bíblico de amor (ágape) é de natureza bem diferente. O amor não é primordialmente subida do homem, mas descida de Deus em direção aos homens. Não é conquista mas dom, algo espontâneo e gratuito.

Para os gregos, é o homem que ama, não Deus. Para os cristãos, é sobretudo Deus que ama: o homem só pode amar na dimensão do novo amor que realiza uma revolução interior radical e assemelha o seu comportamento ao de Deus.

O amor cristão é verdadeiramente sem limite, é infinito. Deus ama o homem ao ponto do sacrifício da cruz; ama os homens inclusive em suas fraquezas. É nisso que o amor cristão revela a sua desconcertante grandeza: uma desproporção entre o dom e o beneficiário desse dom, ou seja, na absoluta gratuidade de tal dom.

É no mandamento do amor que Cristo resume a essência dos mandamentos e da lei em seu conjunto. Em Marcos, podemos ler esta preciosa resposta que Cristo deu à pergunta de um escriba, que queria saber qual era o primeiro dos mandamentos:

O primeiro é... o Senhor nosso Deus é o único Senhor, e amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento, e com toda a tua força. O segundo é ...: amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não existe outro mandamento maior do que este (Mc 12, 29-31).

A ilimitabilidade do amor cristão expressa-se mais profundamente nestas palavras de Mateus:

Ouvistes que foi dito: “Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo”. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; desse modo vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o seu sol igualmente sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos. Com efeito, se amais aos que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem também os publicanos a mesma coisa? E se saudais apenas os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem também os gentios a mesma coisa? Portanto, deveis ser perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito (Mt 5, 43-48).

Esta passagem da primeira epístola de João resume muito bem o arco da temática do amor cristão:

[...] amemo-nos uns aos outros, pois o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conheceu a Deus, porque Deus é amor. Nisto se manifestou o amor de Deus por nós: Deus enviou o seu Filho único ao mundo para que vivamos por ele. Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele quem nos amou e enviou-nos seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados. Amados, se Deus assim nos amou, devemos, nós também, amar-nos uns aos outros. Ninguém jamais contemplou a Deus. Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor em nós é realizado. Nisto reconhecemos que permaneceremos nele e ele em nós: ele nos deu seu Espírito (1Jo 4, 7-13).

E a primeira epístola aos coríntios contém o mais excelente hino ao ágape, ao novo amor cristão:

Ainda que eu falasse línguas, as dos homens e a dos anjos, se eu não tivesse a caridade, seria como bronze que soa ou como címbalo que tine. Ainda que tivesse o dom da profecia, o conhecimento de todos os mistérios e de toda a ciência, ainda que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tivesse a caridade, nada seria. Ainda que distribuísse todos os meus bens aos famintos, ainda que entregasse meu corpo às chamas, se não tivesse a caridade, isso nada me adiantaria. A caridade é paciente, a caridade é prestativa, não é invejosa, não se ostenta, não se incha de orgulho. Nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. A caridade jamais passará. Quanto às profecias, desaparecerão. Quanto às línguas, cessarão. Quanto à ciência, também desaparecerá. Pois o nosso conhecimento é limitado, e limitada é a nossa profecia. Mas, quando vier a perfeição, o que é limitado desaparecerá. Quando era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Depois que me tornei homem, fiz desaparecer o que era próprio da criança. Agora vemos em espelho e de maneira confusa, mas, depois, veremos face a face. Agora meu conhecimento é limitado, mas, depois, conhecerei como sou conhecido. Agora, portanto, permanecem fé, esperança, caridade, essas três coisas. A maior delas, porém, é a caridade (1Cor 13, 1-13).

Paulo não sabia nada do eros e Platão não sabia nada do ágape. Talvez tivessem podido aprender um com o outro. Mas exatamente nessa tarefa é que se cimentou grande parte do pensamento cristão posterior. O ágape cristão pode viver sem o eros grego, mas o eros grego não pode viver sem o ágape cristão.

Rio de Janeiro, 24 de agosto de 2008.

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