Latim e Direito Constitucional

A filosofia grega subestimara a fé ou crença (pistis) do ponto de vista cognoscitivo, pois dizia respeito às coisas sensíveis, mutáveis, sendo portanto uma forma de opinião (doxa).

Platão a valorizou como componente do mito, mas, em seu conjunto, o ideal da filosofia grega era o episteme, o conhecimento. Todos os pensadores gregos viam no conhecimento a virtude por excelência do homem e a realização da essência do próprio homem.

A nova mensagem veio exigir do homem precisamente uma superação dessa dimensão, invertendo os termos do problema e pondo a fé acima da ciência.

Isso não significa que a fé não tenha um valor cognoscitivo próprio. Entretanto, trata-se de valor cognoscitivo de natureza inteiramente diferente, em comparação com o conhecimento da razão e do intelecto. De todo o modo, trata-se de valor cognoscitivo que só se impõe a quem possui aquela fé. Como tal, ela constitui verdadeira provocação em relação ao intelecto e à razão.

O sentido geral dessa provocação é revelado por Paulo em sua primeira epístola aos coríntios (1Cor 1, 18-31; 2, 1-16):

[...] a linguagem da cruz é loucura para aqueles que se perdem, mas para aqueles que se salvam, para nós, é poder de Deus. Pois está escrito:

‘Destruirei a sabedoria dos sábios,
e rejeitarei a inteligência dos inteligentes.
Onde está o sábio? Onde está o homem culto?’ (Is 33, 18; 19, 12).

Onde está o argumentador deste século? Deus não tornou louca a sabedoria deste século? Com efeito, visto que o mundo por meio da sabedoria não reconheceu a Deus na sabedoria de Deus, aprouve a Deus pela loucura da pregação salvar aqueles que creem. Os judeus pedem sinais, e os gregos andam em busca de sabedoria; nós, porém, anunciamos Cristo crucificado, que para os judeus é escândalo, para os gentios é loucura, mas para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos, é Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus. Pois o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens, e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens.

Vede, pois, quem sois, irmãos, vós que recebestes o chamado de Deus; não há entre vós muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de família prestigiosa. Mas o que é loucura no mundo, Deus o escolheu para confundir os sábios; e o que é fraqueza no mundo, Deus o escolheu para confundir o que é forte; e, o que no mundo é vil e desprezado, o que não é, Deus escolheu para reduzir a nada o que é, a fim de que nenhuma criatura possa vangloriar-se diante de Deus. Ora, é por ele que vós sois em Cristo Jesus, que se tornou para nós sabedoria proveniente de Deus, justiça, santificação e redenção, a fim de que, como diz a Escritura, ‘aquele que se glorie, glorie-se no Senhor’ (Jr 9, 22-23).

Eu mesmo, quando fui ter convosco, irmãos, não me apresentei com o prestígio da palavra ou da sabedoria para vos anunciar o mistério de Deus. Pois não quis saber outra coisa entre vós a não ser Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado. Estive entre vós cheio de fraqueza, receio e tremor; minha palavra e minha pregação nada tinham de persuasiva linguagem da sabedoria, mas eram como uma demonstração de Espírito e poder, a fim de que a vossa fé não se baseie na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus.

No entanto, é realmente de sabedoria que falamos entre os perfeitos, sabedoria que não é deste mundo nem dos príncipes deste mundo, votados à destruição. Ensinamos a sabedoria de Deus, misteriosa e oculta, que Deus, antes dos séculos, de antemão destinou para a nossa glória. Nenhum dos príncipes deste mundo a conheceu, pois, se a tivessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da Glória. Mas, como está escrito,
‘o que os olhos não viram,
os ouvidos não ouviram
e o coração do homem não percebeu,
tudo o que Deus preparou para os que o amam’ (Is 64,3; Jr 3, 16; Sl 19,4; Eclo 1, 10).

A nós, porém, Deus o revelou pelo Espírito. Pois o Espírito sonda todas as coisas, até mesmo as profundidades de Deus. Quem, pois, dentre os homens conhece o que é do homem, senão o espírito do homem que nele está? Da mesma forma, o que está em Deus, ninguém o conhece senão o Espírito de Deus. Quanto a nós, não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que vem de Deus, a fim de que conheçamos os dons da graça de Deus. Desses dons não falamos segundo a linguagem ensinada pela sabedoria humana, mas segundo aquela que o Espírito ensina, exprimindo realidades espirituais em termos espirituais. O homem psíquico não aceita as coisas que vêm do Espírito de Deus. É loucura para ele; não pode compreender, pois isso deve ser julgado espiritualmente. O homem espiritual, ao contrário, julga a respeito de tudo e por ninguém é julgado.

‘Pois quem conheceu o pensamento do Senhor
para poder instruí-lo?’ (Is 40, 13; Rm 11, 34).

Nós, porém, temos o pensamento de Cristo.

Esta mensagem subversiva de todos os esquemas tradicionais dá origem inclusive a uma nova antropologia; o homem não é mais simplesmente corpo e alma (entendendo-se por alma razão e intelecto), isto é, em duas dimensões, mas sim em três dimensões: corpo, alma e espírito, em que espírito é exatamente essa participação no divino através da fé, a abertura do homem para a Palavra divina (Jo 1,1) e para a Sabedoria divina (Lc 11, 49), que o preenche com nova força e, em certo sentido, lhe dá nova estatura ontológica.

A nova dimensão da fé, portanto, é a dimensão do Espírito em sentido bíblico. Os gregos haviam conhecido a dimensão do nous, mas não a do pneuma, que passaria a ser a dimensão dos cristãos.

Rio de Janeiro, 17 de agosto de 2008.

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