Latim e Direito Constitucional

A realeza de Jesus não é enfatizada nos evangelhos nem nas cartas paulinas. Isso constitui uma parte da transformação do messianismo do Antigo Testamento, que apresenta uma figura incompleta da realidade de Jesus.

O título é dado a Jesus em Mt 2, 2: ... “Onde está o rei dos judeus recém-nascido? Com efeito, vimos sua estrela no seu surgir e viemos homenageá-lo.”

De fato, o caráter de rei que Jesus possui é a chave de toda essa narrativa, que tem como principal objetivo mostrar a verdadeira realeza de Jesus, destituída da pompa externa e reconhecida somente por alguns gentios.

Jesus antes aceita do que reclama o título, no seu diálogo com Pilatos: “És tu o rei dos judeus? Jesus declarou: Tu o dizes.” (Mt 27, 11; Mc 15, 2; Lc 23, 3).

João (18, 33-39) oferece uma versão mais longa desse diálogo: “Meu reino não é deste mundo. Se meu reino fosse deste mundo, meus súditos teriam combatido para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas meu reino não é daqui.” O intuito joanino era tornar claro o caráter universal da realeza de Jesus.

Nas narrativas da paixão encontram-se outras alusões que demonstram a crença popular, também aceita pelos soldados que executaram Jesus, de que ele queria restaurar a monarquia de Israel: “Salve, rei dos judeus!”; “Quereis que vos solte o rei dos judeus?”; “Eis o vosso rei!” (Mt 27, 29.37.42; Mc 15.9.18.26.32; Lc 23, 37s; Jo 19, 3.14.19-21).

Quando Natanael exclamou “Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel”, o título de rei de Israel combinado com o de Filho de Deus (Jo 1, 49) professa a crença no caráter messiânico de Jesus.

O título de rei torna-se visível na procissão de ramos, em Jo 12, 13 (Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor e o rei de Israel), mas não se encontra no relato desse episódio nos evangelhos sinóticos.

Essa diferença não é importante, já que o incidente reflete explicitamente a vinda do rei em Zc 9, 9: “Exulta muito, filha de Sião! Grita de alegria, filha de Jerusalém! Eis que o teu rei é justo e vitorioso, humilde, montado sobre um jumento...”.

O rei aqui é humilde e, por isso, Jesus aceita a identificação. Não se tem certeza – há até motivo para dúvidas – se aqueles que o aclamavam compreendiam plenamente o sentido de um tal rei.

Paulo, em 1Cor 15, 24s, volta ao assunto: “A seguir virá o fim, quando ele entregar o reino a Deus Pai, depois de ter destruído todo o Principado, toda a Autoridade, todo o Poder.”

Esse texto paulino exibe a realeza de Jesus. Mas ela aí é claramente escatológica, consumada depois da conquista de todos os seus inimigos.

P.S.: artigo publicado no periódico Jornal da Cidade (Caxias – MA), em 26/02/2006.

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