Latim e Direito Constitucional

Antônio Luis, Tony,

Saúde!

Obrigado por me ter presenteado com a sua Minha vida de padreco.

Meus sinceros parabéns. Você é um escritor nato. Sabe descrever ambientes, situações, fatos e dados históricos com muita segurança, num estilo vivíssimo, com descrições cheias de colorido, de propriedade, de riqueza e adjetivação muito segura.

Só tenho palavras de estímulo, de entusiasmo, de confraternização e de louvor, por ter sido tão preciso na sua abordagem relativa ao seu período de internato.

Depois de 54 anos, revivi cenas da minha adolescência e juventude com os seus relatos.

Adorei mesmo rever em Caxias os holandeses Marino, Nicolau e Diogo. Vieram-me à mente as aulas de matemática, física e história do Marino, grande cabeça enciclopédica, suas aulas de latim com César, Cícero, Virgílio, Ovídio, Horácio etc.

Na Prainha, lembrar dos professores Paiva, Ildeu, Luz, Bernardo, Elias, Arruda e tantos outros, do diretor espiritual Tomé e colegas muito inteligentes como Luizito e Maia, de humoristas como Vital. Muito gostoso mesmo reviver tudo isso.

Trazer à memória o imenso salão de refeitório para 400 alunos, onde fui leitor muitas vezes, a schola cantorum, as amizades da época, quanta saudade.

Muita coisa por você descrita me era desconhecida, em face da diferença de períodos. Você ingressou no seminário de Caxias em 1951 e ficou até 1954, de onde foi transferido para a Prainha, de lá saindo em 1959. A minha tragetória foi de 1949 a 1954 em Caxias e de 1955 a 1957 na Prainha.

Como estávamos separados por dois anos de diferença, é típica a sua referência a mim. A sua frase de que eu "pairava sobre os demais pelo diferenciado nível cultural" (sic) é pura bondade sua. Igualmente, na página 40, sua afirmação de que eu tinha "grande domínio da língua inglesa" (sic) demonstra apenas que você estava começando o estudo do inglês, quando eu estava terminando.

Mas a minha preferência pelo latim é que me deu de presente gratuitamente o conhecimento e a fluência atual em espanhol, italiano e francês. Isso tanto é verdade que tenho no orkut uma comunidade chamada de Latim e Literatura Latina, onde coloco semanalmente 5 frases dos clássicos latinos. Tudo isso escrito totalmente em latim, inclusive a data.

Em Fortaleza, não fizemos juntos o curso de filosofia, onde assimilei totalmente o Gredt, me dando oportunidade de sempre questionar o mestre Paiva.

Ainda hoje me lembro da enorme discussão na sala de aula, quando, ao estudar os atributos pinos entitativos, eu afirmei que Deus não poderia ser totalmente imutável, porque os evangelhos dizem que os cristãos devem orar com insistência (Lc 11, 5-8). Se Jesus ensina que o cristão deve orar com plena confiança de que a sua oração será atendida (Mt 7, 7-11; Lc 11, 9-13), então o Gredt estava errado, ao dizer que Deus é imutável, Deus est omnino immutabilis...non constat ex potentia et actu. (Elementa II, 804 e 805). Se a nossa prece pode mudar o próprio Deus, então Ele não é imutável. Tive a impressão de que naquele dia eu seria mandado de volta para Caxias (MA).

Em outra oportunidade, quando, ao estudar a sociedade doméstica, afirmei que o Gredt estava errado, ao doutrinar que a masturbação era pecado contra a natureza, peccatum contra naturam (Elementa II,1014, I), pois, julgava eu, apenas um espermatozoide fertiliza o óvulo. O restante poderá ser usado como o homem quiser. Logo, o prazer solitário era não só conveniente como saudável e necessário. Não sei como não fui expulso do seminário naquele momento.

17 anos, meu amigo, a gente só tem uma vez.

Gredtmanteve e ainda mantém influência em muitas escolas e círculos neotomistas pela apresentação sistemática da filosofia aristotélico-tomista. Seu manual teve sempre por base a obra de João de Santo Tomás (1589-1644) e de Caetano (1468-1534). Mantenho ainda hoje meu contato com a filosofia neotomista, complementando o Gredt com os 4 volumes do Régis Jolivet, que apresenta todas as grandes correntes dos principais nomes atuais do pensamento filosófico, partindo sempre de Aristóteles, Tomás de Aquino e Gredt.

Adorei a última parte do seu trabalho, intitulado Um balanço: o que aprendi e o que aproveitei no seminário. Concordo plenamente com os temas e as palavras utilizadas por você, ao abordar assuntos sobre a capacitação cultural e filosófica, a disciplina intelectual, a congruência comportamental, o amor à liberdade, a iniciativa e responsabilidade, a tolerância e paciência, enfim a sensibilidade sociopolítica e ético-religiosa.

Pode me considerar como coautor de tudo o que você escreveu ali.

Antes de terminar, tenho uma pequena sugestão para a segunda edição do seu livro, relativamente às páginas 27 e 98. A preposição latina ex rege somente o ablativo. Assim na página 27 o ideal seria escrever ex manu placere, da mesma maneira como escreveu corretamente na página 98 in manu alivium, pois a preposição latina in rege ora acusativo, ora ablativo.

Mais uma vez, meus parabéns e transmita um abraço para seu irmão, o Macedão.

Abraços.

Máriton

 

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