Latim e Direito Constitucional

Não há registros de pavimentação nas antigas cidades israelitas, e não são raras as indicações feitas pelos profetas a respeito de sujeira nas ruas (Is 10,6; Mq 7, 10).

O lixo era jogado das casas diretamente nas ruas. Existem referências a cães que as limpavam, comendo os restos (Ex 22, 30; Is 5, 25).

As praças situadas junto às portas serviam como mercados (2Rs 7, 1), mas também como tribunais. Os anciãos sentavam-se junto à porta e aí dirimiam as questões (Dt 21, 19; 2Sm 15, 2).

As pessoas que praticavam o mesmo ofício ou se dedicavam ao mesmo comércio viviam freqüentemente, embora nem sempre, na mesma rua. Em Damasco e em Samaria, havia ruas separadas para os mercadores de outras cidades (1Rs 20, 34).

O Novo Testamento conserva a distinção entre cidade e aldeia. Betânia, Betfagé, Belém e Emaús são chamadas de “aldeias”, ao passo que Nazaré, Nain e Cafarnaum são chamadas de “cidades”.

As cidades gregas situadas nas proximidades da Palestina, sobretudo as da Decápole, estavam organizadas com base no modelo da pólis grega, em torno da ágora ou mercado, possuindo banhos públicos, um teatro, um estádio. Tinham uma ou duas ruas largas, com pórticos, estendendo-se através de toda a cidade.

O governo da pólis grega era exercido por um senado (boule) e por uma assembléia (ekklesía) do povo (demos). Esse modelo nunca foi aceito pelos hebreus.

Nas imagens do Novo Testamento, a cidade adquiriu um importante significado teológico, que nasceu a partir da concepção veterotestamentária de Jerusalém como cidade de Deus, local habitado por Iahweh, que tem sua morada no templo.

Na maior parte dos livros proféticos, o seu messianismo inclui a restauração de Jerusalém das suas ruínas. Mas a Jerusalém do Novo Testamento torna-se modelo para a Jerusalém celeste, que é “livre”, é “nossa mãe” (Gl 4, 26), e os cristãos são cidadãos da cidade celeste (Fl 3, 20).

A epístola aos hebreus apresenta um contraste entre a teofania do Sinai e a caminhada dos cristãos em direção ao monte Sião, a cidade do Deus vivo, Jerusalém celeste (Hb 12, 22). Os cristãos não são cidadãos de uma cidade terrena, mas homens que estão a caminho de uma cidade futura (Hb 13, 14).

A cidade de Deus é a nova Jerusalém que deve descer do céu, de junto de Deus (Ap 3, 12): a última visão do vidente de Patmos é a visão de Jerusalém, cidade santa, descendo do céu, de junto de Deus, em toda a glória de Deus (Ap 21, 22).

Ela resplandece de pedras preciosas e tem doze portas, feitas de pedras preciosas (Ap 21, 19). Não possui nenhum templo, pois o Senhor Deus e o Cordeiro são o seu templo. Não necessita de sol nem de lua, pois a glória de Deus a ilumina, e sua lâmpada é o Cordeiro (Ap 21, 23).

Todos os reis da terra levarão a ela a sua glória e o seu esplendor. Suas portas nunca estarão fechadas (Ap 21, 25) nem de dia nem de noite. Nela não entrará quem for impuro (Ap 21, 27).

A imagem da cidade celeste suscita a idéia de que é na vida urbana que o homem alcança o máximo de suas aspirações e do seu poder, pois ela oferece possibilidades que nunca poderiam ser encontradas na primitiva sociedade pastoril ou agrícola.

Rio de Janeiro, 05 de agosto de 2007

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