Latim e Direito Constitucional

A teologia do juízo de Deus em João parece constituída por uma série de paradoxos. Deus não enviou seu Filho para condenar o mundo, mas sim para salvá-lo (Jo 3, 17), coisa que é dita pelo próprio Jesus (12, 47). No entanto, o mesmo Jesus diz também que veio a este mundo para julgamento (9, 39).

Outro paradoxo encontra-se na identificação do juiz. O Pai não julga ninguém (5, 22); entretanto, aquele que procura a glória de Jesus não pode ser outro além do Pai (8, 50).

Jesus diz que o Pai não julga ninguém porque confiou ao Filho todo o julgamento (5, 22.27), mas também afirma que o Pai julga justamente (5, 30) e verdadeiramente (8, 16). Ademais, é o próprio Jesus que diz que não se deve julgar (8, 11; 12, 47).

A existência desses paradoxos não significa que não haja uma unidade de pensamento, que se encontra na natureza do juízo, concepção particular a João.

Em João, o juízo está sempre presente, sendo, por assim dizer, um ato do próprio homem. O crente não é julgado, mas o incrédulo já está julgado por sua própria falta de fé (3, 18; 5, 24). O descrente terá seu julgamento no último dia, tendo por juiz a palavra pronunciada por Jesus (12, 48).

O espírito não julgará o mundo, mas demonstrará que há um juízo mostrando que o príncipe do mundo, o espírito do mal, já está condenado (16, 11). E o próprio Jesus afirma que o julgamento deste mundo é agora, quando se aproxima a hora crítica de sua rejeição por parte do seu próprio povo (12, 31).

Aí parece ficar claro que em João o juízo é a rejeição da fé em Jesus Cristo. Quem recusa a fé reviverá para a ressurreição de condenação, contraposta à ressurreição da vida (5, 29). Jesus é juiz no sentido de que se apresenta como objeto de decisão – e é nesse sentido que o Pai não julga ninguém, entregando ao Filho todo o julgamento. Jesus não vem para julgar os ímpios, mas sim para salvar os que crêem.

A epístola aos hebreus recorda a ressurreição dos mortos e o julgamento eterno (Hb 6, 2). Trata-se provavelmente do julgamento que espera os homens depois da morte (9, 27) e cuja espera infunde temor (10, 27). Os adúlteros e fornicadores são identificados como objeto de julgamento (13, 4). O termo também é usado em um sentido metafórico: por sua fé e obediência, Noé condenou o mundo (11, 7).

Tiago (Tg 2, 12) ressalta que quem espera ser julgado pela lei da liberdade deve viver segundo essa lei; pois será sem misericórdia o juízo para quem não pratica a misericórdia (2, 13). Os mestres cristãos serão julgados com particular severidade (3, 1).

Tiago (4, 12) faz eco à advertência de Mt 7, 1; Lc 6, 37: não se deve julgar os outros. Deus julgará os vivos e os mortos (1Pd 4, 5): essa afirmação dá a entender que os mortos ainda não foram julgados.

O juízo começa pela casa de Deus, a Igreja (1Pd 4, 17). Em 2Pd e em Judas, o juízo tomou uma coloração apocalíptica: é comparado ao julgamento de Sodoma e Gomorra (2Pd 2, 6); os injustos serão reservados para o dia do juízo (2Pd 2, 9) e os céus e a terra estão reservados para o fogo, no dia do juízo (2Pd 3, 7).

O apocalipse é o livro do juízo apocalíptico. O momento culminante desse juízo é o julgamento da grande prostituta, Babilônia (Roma). Aqui, “julgamento” equivale à derrocada de um poder mundano (Ap 17, 1-19, 2). É uma “hora do juízo” (14, 7). O julgamento é confiado a outros, não identificados, mas que devem ser os santos (20, 4); o cavaleiro sobre o cavalo branco é um instrumento de juízo (19, 11). O ato final do juízo é um tribunal no qual os mortos são julgados (11, 18; 20, 12s).

P.S.: artigo publicado no periódico Jornal da Cidade (Caxias – MA), em 24/12/2006.

Direitos reservados: os textos podem ser reproduzidos, desde que citados o autor e a obra. ( Código Penal, art. 184 ; Lei 9610/98, art. 5º, VII e Norma Técnica NBR 6023, da ABNT ).