Latim e Direito Constitucional

O “dia do juízo” é mencionado em Mt 10, 15; 12, 36 e em Lc 11, 22.24.

Não se deve enfatizar excessivamente o termo “dia”, já que as passagens paralelas apresentam apenas o termo “juízo” (Mt 12, 41.42; Lc 10, 14; 13, 31s).

Em Mt 12, 41s e em Lc 11, 31s, o julgamento de condenação não é proferido por Deus, mas pelos gentios, cuja fé é confrontada com a incredulidade dos judeus; assim, fica evidente que se trata aqui de uma metáfora.

Metáfora análoga atribui o exercício do julgamento aos doze (Mt 19, 28; Lc 22, 30), a menos que nessas passagens o termo “juiz” tenha sido tomado no sentido hebraico de “governante”, sentido que parece mais provável.

Jesus adverte contra aqueles que se arrogam as funções de juiz, fazendo então do nosso juízo sobre os outros a medida do juízo de que seremos objeto (Mt 7, 1s; Lc 6, 37).

A cena descrita em Mt 25, 31-46 – geralmente chamada de “grande julgamento” – pouca ou nenhuma semelhança apresenta com uma cena de juízo. Na passagem não existe uma palavra sequer que faça pensar em julgamento.
Paulo é citado em At 24, 25 a propósito do “juízo futuro”, expressão que de fato aparece nas epístolas. Repetindo a advertência contra quem julga os outros, Paulo se pergunta de que modo aquele que julga os outros poderá fugir ao juízo de Deus (Rm 2, 1-3).

A justiça de Deus terá lugar através de sua ira (Rm 3, 5). Será esse o “dia” em que Deus julgará (Rm 2, 16), no qual ele julgará o mundo (Rm 3, 6) e no qual Jesus Cristo virá julgar os vivos e os mortos (2Tm 4, 1).

Não fica claro o que entende Paulo quando fala do julgamento do mundo e dos anjos por parte dos santos (1Cor 6, 2s); talvez se trate de um eco de Mt 19, 28; Lc 22, 30. Pelo contexto, fica claro que, neste caso, julgar significa “pronunciar uma sentença judiciária” e não “governar”.

Paulo fala ainda de um julgamento passado, o julgamento com base em um só (Adão) para a condenação de todos (Rm 5, 16.18). Mas aqueles “que estão em Cristo Jesus” escapam a essa condenação universal (Rm 8, 1), porque a condenação do pecado na carne foi destruída pela morte de Jesus na carne (Rm 8, 3). Os judeus representam um caso especial: são julgados segundo a lei (Rm 2, 12).

Parece ainda haver um sentido no qual o juízo já é presente. Apesar de Rm 8, 1, Paulo prevê em 1Cor 11, 32 a possibilidade de que também os cristãos sejam condenados juntamente com o mundo, só escapando dessa condenação por já terem sido punidos pelo Senhor.

Aquele que come e bebe sem discernir o Corpo do Senhor come e bebe a própria condenação (1Cor 11, 29).
Como objetos de condenação são mencionados a calúnia (Rm 3, 8), a violação do voto de virgindade (1Tm 5, 12), os judaizantes que lançaram a confusão entre os gálatas (Gl 5, 12), aqueles que não crêem na verdade (2Ts 2, 12), aqueles que desobedecem à autoridade pública (Rm 13, 2), sendo que o julgamento relativo a esta última passagem é provavelmente o da autoridade.

Enfim, Paulo tinha consciência de que o juízo de Deus é insondável (Rm 11, 33).

P.S.: artigo publicado no periódico Jornal da Cidade (Caxias – MA), em 17/12/2006.

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