Latim e Direito Constitucional

A experiência mostra que os homens hesitam a respeito do bem concreto que lhes proporcione a felicidade. Há quem o identifique com o dinheiro, outros com o prazer, outros com a glória... Existe, por acaso, um único fim supremo verdadeiro, que garanta ao homem a sua plena realização e felicidade?

A finalidade que polariza toda a vida do ser humano deve satisfazer plenamente a todas as aspirações inatas da pessoa, oferecendo-lhe o bem sem defeito algum. Será que existe um bem capaz de atender a esse requisito?

O homem constitui um grande enigma para si mesmo. É dotado de aspirações fundamentais e incoercíveis, que não encontram adequada resposta na vida presente. Assim é que todo o homem traz em si o desejo inelutável de felicidade, justiça, verdade, amor...

Aos mais belos sucessos seguem-se as mais amargas decepções: um diploma, um título de “doutor” representam valores, sim, mas, em comparação com nossas aspirações fundamentais, ainda são muito pouca coisa. Há sempre uma distância entre nossas aspirações e nossas possibilidades, entre nossas possibilidades e nossas realizações.

Depois de executar – bem ou mal – a sua tarefa, o homem sabe que entrará na velhice, a qual paralisará as suas atividades. E após a velhice haverá a queda na grande fossa, em que todo o ser visível é pulverizado. Preceito velho, desde o início dos tempos: Com o suor de teu rosto comerás teu pão até que retornes ao solo, pois dele foste tirado. Pois tu és pó e ao pó tornarás (Gn 3, 19).
Roger Ikor observa: “Alguns instantes de vida, e depois nada mais, eis o que te incita a te perguntar com ênfase singular, diante de cada ato da vida: ‘Para que isto?’” (L'Eternité derrière. Paris: Albin Michel, 1980.)

Especificando o pensamento de Ikor, afloram à mente de todo o homem certas perguntas espontâneas e inevitáveis: Donde venho? Para onde vou? Qual o sentido desta existência aqui na Terra? Que valor tem o meu semelhante?... a família?

Sísifo, na mitologia grega, era rei de Corinto, filho de Éolo e esposo de Meropa. Por um motivo que os comentadores ignoram, os deuses condenaram-no a fazer rolar uma enorme pedra por sobre a rampa de uma montanha, até atingir o cume. Sísifo, submetendo-se à punição, nunca conseguia chegar a termo, pois a rocha, impelida para cima, cedo ou tarde se precipitava por efeito do próprio peso.

A luta perseverante de Sísifo tem algo de grandioso e heróico, sem dúvida. Ela representa a realidade da vida humana neste mundo, vida que é um contínuo recomeçar em conseqüência de sucessivas frustrações e quedas.

Alguns pensadores acham que a luta mesma em demanda do píncaro basta para encher um coração humano; é preciso que imaginemos Sísifo feliz... embora saibamos que não atingirá a saciedade.

Sísifo sofre, renunciando a atingir o único objetivo que possa motivar a luta dolorosa: a posse da felicidade tranqüila e definitiva. Será necessário que o homem aceite simplesmente o seu penar e procure sufocar em si o desejo incoercível de felicidade?

O homem que hoje trabalha penosamente nem sempre se reconhecerá (nem aceitará reconhecer-se) na figura de Sísifo; quem não tem a esperança de adquirir algo, mediante os seus esforços, está destituído de energias indispensáveis para poder sustentar a luta.

P.S.: artigo publicado no periódico Jornal da Cidade (Caxias – MA), em 02/07/2006.

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