Um conhecido do Tribunal de Justiça do Rio mostrou-me sua monografia
sobre problemas oblíquos e me disse que seus colegas de Faculdade
o chamam de filólogo. Perguntei-lhe se conhecia francês
e italiano. Diante da sua negativa, expliquei-lhe que não se
pode confundir filólogo com gramático. Gramático
é o que conhece, acompanha e expõe os fatos de um idioma;
filólogo é o que conhece a língua com relação
a outras línguas afins ou correlatas. Conhecendo vários
idiomas, o filólogo julga, conclui, conhece os idiotismos, os
fatos particulares de línguas diversas, a formação
e a derivação dos vocábulos.
Exemplos de filologia são as frases “fale a verdade”
e “não diga mentira”. Lá o artigo, aqui não.
O inglês diz: “to tell the truth”. Em francês
existe “s’il faut dire la vérité”. A
razão é porque mentira é indeterminado (“isto
pode ser mentira”), ao passo que verdade é empregado determinadamente.
Em “isto é verdade”, a palavra verdade está
por verdadeiro; tanto assim é que em francês (onde verdade
é vérité) e em inglês (onde verdade é
truth) essa indeterminação obriga-nos a diferentes palavras:
C’est vrai – This is true. Isto é filologia e não
apenas gramática de um trabalho escolar.
A monografia de meu amigo lembra-me o sofisma de Renato Descartes (1596-1650)
que, num círculo vicioso, provava a existência de Deus
pela idéia clara que tinha disto e fundamentava o valor da idéia
clara sobre a existência de Deus. É como provar que João
é filho de Paulo, afirmando que Paulo é pai de João.
Quando o intelecto passa de uma verdade para outra existe o raciocínio.
Assim, ‘todo o homem é mortal’, ora, ‘Pedro
é homem’ (antecedentes ou premissas), logo, ‘Pedro
é mortal’ (conseqüente ou conclusão). Mas se
o raciocínio, sob as aparências de retidão, ocultar
um defeito em virtude do qual a conclusão é errônea,
estaremos diante de um sofisma.
Exemplos de sofismas de forma: ‘Toda a manga é comestível’,
ora, ‘uma parte da veste é manga’, logo, ‘uma
parte da veste é comestível’ (equívoco).
‘Quem faz castelos em determinada área deve pagar os impostos
respectivos’, ora, ‘João faz castelos no ar’,
logo, ‘João deve pagar os impostos respectivos’ (metáfora).
Exemplos de sofismas de matéria: ‘Tudo o que exerce má
influência é essencialmente mau’, ora, ‘o estudo
social (a sociedade) exerce má influência’, logo,
‘a sociedade é essencialmente má’ (o acidental
é considerado essencial, célebre sofisma de Jean Jacques
Rousseau – 1712-1778). ‘Este ladrão é um bom
soldado’, ora, ‘todo o bom soldado deve ser premiado’,
logo, ‘este bom ladrão deve ser premiado’ (ignorância
da questão).
Nos tempos mais remotos denominaram-se sofistas todos os que se entregavam
ao estudo das ciências e das artes. Assim chama Aristóteles
os sete sábios da Grécia. No século V restringiu-se
o significado do termo aos pedagogos e professores ambulantes de retórica
que ensinavam mediante remuneração pecuniária.
Pouco a pouco, pela tendência rabulista destes mestres de eloqüência,
o termo foi tomando o significado pejorativo que conservou até
hoje.
Sócrates combateu toda a sua vida contra estes pseudofilósofos;
Platão impugna-os ainda nos seus primeiros diálogos; Aristóteles
fala dos sofistas como de adversários históricos, como
de um perigo esconjurado.
Parmênides afirmava a imutabilidade do ser. Heráclito opõe-lhe
a mutabilidade de todas as coisas. Concluir daí que tudo é
ilusão e que a ciência é impossível era um
passo fácil.
Para Protágoras, o homem é medida de todas as coisas.
Górgias afirmava: “Nada existe; se alguma coisa existisse
não a poderíamos conhecer; se a conhecêssemos não
a poderíamos manifestar aos outros.” Para Hípias,
a lei é o tirano dos homens, a causa de suas discórdias.
Polus, Trasímaco e Cálicles preconizavam: “Justo
é o que é útil ao mais forte.”
O aparecimento dos sofistas foi de grande utilidade para o progresso
da filosofia. Abusando da dialética, revelaram-lhe o valor e
a importância de se lhe estudarem as regras e leis fundamentais.
Estou pensando que o meu amigo do Tribunal de Justiça do Rio
estava sofismando, porque o seu trabalho escolar não era realmente
exemplo de filologia.
O gramático e o filólogo podem unir-se. O gramático
apresentando ao filólogo os fatos da sua língua, para
que o filólogo os analise em relação aos fatos
existentes em outros idiomas.
P.S.: a) Artigo publicado simultaneamente nos periódicos A Hora
(São Luís – MA), Jornal da Cidade (Caxias –
MA) e O Dia (Teresina – PI).
b) Data da publicação no Jornal da Cidade, de Caxias (MA):
02/03/2003.