Um amigo europeu comentava outro dia comigo sobre a riqueza do seu
idioma, pelo fato de ter várias formas para descrever a mesma
coisa. Por exemplo: abjurar (to abjure, to renounce), admirar (to admire,
to praise), ambiente (ambient, surrounding), benevolente (benevolent,
kind and generous) etc. Lembrei-lhe que 50% do vocabulário inglês
se compõe de palavras latinas e 50% de palavras germânicas.
Nossa conversa lingüística prolongou-se bastante, e cheguei
à conclusão de que o inglês adota palavras facilmente,
de modo que muitas vezes as pessoas não se dão conta de
que estão usando palavras estrangeiras. Meu amigo britânico
então começou a rir e disse que assim todas as nacionalidades
se sentem em casa falando inglês (so all nationalities feel at
home speaking English).
A nossa sintaxe chama de vícios de linguagem as palavras ou construções
que deturpam, desvirtuam ou dificultam a manifestação
do pensamento. E o neologismo é um vício de linguagem?
Tenho para mim a convicção de que ele só é
vício de linguagem quando desnecessário.
Ao contrário de arcaísmo, consiste no emprego de palavras
novas, criadas pela ciência, por organizações modernas
(telégrafo, autódromo, astronauta, míssil, telex,
xérox), ou de palavras antigas tomadas em sentido novo (computador,
satélite).
A revista americana The New York Times Magazine tem uma seção
semanal chamada “On Language”, em que o articulista luta
por um inglês mais escorreito, mais puro, mais britânico,
mais de acordo com suas origens.
O português não pode fugir dos neologismos, porque é
uma língua viva, falada por um povo que recebe influências
globalizantes, através da televisão, do cinema e da internet.
Parece-me, no entanto, que o seu uso deva se restringir às palavras
indispensáveis, como, por exemplo, e-mail, ou seja, um sistema
que permite o envio de mensagens pelo computador (will you e-mail me
about it?).
Salvo melhor juízo, para a pureza do nosso idioma, devem ser
evitadas palavras estrangeiras totalmente dispensáveis, uma vez
que existem em português palavras que representam a mesma coisa.
Seguem alguns exemplos com o vernáculo correspondente:
1) outdoor – cartaz, cartazão; 2) commercial – anúncio,
propaganda; 3) container – recipiente, canastrão, cofre
de carga, invólucro; 4) open market – mercado aberto; 5)
borderaux – pasta, relatório, registro; 6) vôo charter
– vôo fretado, vôo de fretamento; 7) marketing –
mercadologia, mercadização; 8) shopping center –
centro de compras; 9) slogan – lema; 10) standard – padrão;
11) staff – assessoria, quadro, pessoal, assistência; 12)
performance – rendimento, resultado; 14) ferry-boat – balsa;
15) hall – saguão, sala de entrada; 16) holding –
englobadora, empresa-teto; 17) lingerie – roupa branca; 18) trading
– comercializadora; 19) underwriting – subscrição,
compromisso; 20) score – contagem, resultado, marcação;
21) comitê – comissão, junta, grupo; 22) croquis
– esboço; 23) ersatz – sucedâneo; 24) feedback
– realimentação; 25) design – projeto; 26)
branch – fazenda; 27) panel – mesa-redonda; 28) know-how
– técnica, conhecimentos técnicos, culturais e administrativos;
29) evidence – prova; 30) leasing – arrendamento; 31) script
– texto; 32) relax – descanso.
A defesa do idioma deve usar essa medicação certa para
a cura da lepra lingüística. Do contrário ficaremos
todos deplorando a penúria de nossa fala portuguesa ou, como
dizia meu amigo inglês, nos sentindo em casa falando inglês
(so all nationalities feel at home speaking English).
P.S.: a) Artigo publicado simultaneamente nos periódicos A Hora
(São Luís – MA), Jornal da Cidade (Caxias –
MA) e O Dia (Teresina – PI).
b) Data da publicação no Jornal da Cidade, de Caxias (MA):
23/02/2003.