Nereu Bittencourt foi um professor de português que lecionou
em Caxias (MA) há várias décadas. Muito competente,
era admirado e respeitado por todos os seus contemporâneos.
Tive o prazer de conversar com ele algumas vezes e percebi o quanto
era guia seguro, muito senhor da língua, amante da “última
flor do Lácio, inculta e bela”.
Seus discípulos sempre falavam da sua preocupação
com a sintaxe: a oração, os processos sintáticos,
a concordância, a regência, a colocação dos
termos, os vícios de linguagem, o período, certas particularidades
e a pontuação.
O mestre dominava integralmente esse “ouro nativo, que na ganga
impura a bruta mina entre os cascalhos vela” e via na análise
o meio de averiguação da correção de um
texto, sinônimo de discernimento, de verificação,
de comprovação do que o aluno conhece.
Durante muito tempo, tive dificuldade de entender essa sua obsessão
pela análise sintática, ao considerar a palavra com relação
às outras que se acham na mesma oração.
Hoje, na era televisiva, é que percebo o que se passava na sua
mente, é que capto a sua mensagem de levar o estudante a raciocinar,
a pensar, a vislumbrar os rudimentos da lógica formal, as regras
que o pensamento deve seguir, para concatenar suas idéias com
rigor e clareza.
Realmente, como irá o educando compreender a função
dos pronomes oblíquos, se não sabe classificar o verbo
quanto à predicação? Como perceberá a diferença
entre os pronomes o e lhe, se desconhece a diferença entre verbo
transitivo direto e verbo transitivo indireto? Como compreenderá
a função do reflexivo se, se ainda não estudou
o verbo quanto à voz?
Tudo isso me leva a concluir que ele procurava levar os ouvintes escolares
ao raciocínio, ou seja, à passagem de uma verdade para
outra e ao silogismo, ressaltando a função do sujeito,
do vocativo, do adjunto adnominal restritivo, do objeto indireto, do
adjunto adverbial e do objeto direto.
Pena é que o mestre não lecionasse latim. Aí sim
é que o seu objetivo seria completo, levando o aluno a pensar,
a raciocinar, pois para cada função existe, em latim,
um caso, isto é, uma maneira de escrever a palavra de acordo
com a função que ela exerce na oração.
Ao traduzir em latim as frases ‘o homem que (quem) eu vi morreu’,
‘o homem que (qui) me viu morreu’, ‘as alunas que
(quas) premiei estudam muito’, ‘conheço soldados
cuja (quorum) coragem espanta’, a pessoa é obrigada a pensar
nos casos acusativo, objeto direto (quem e quas), nominativo, sujeito
(qui), e genitivo, adjunto adnominal restritivo (quorum). Nessa obrigação
está o proveito do estudo desse idioma: desenvolvimento de concentração
de espírito, de atenção, de raciocínio.
Aprender latim é aprender a pensar.
O bom professor Nereu não ensinava latim; só dispunha
das regras da “desconhecida e obscura tuba de alto clangor, lira
singela, que tens o trom e o silvo da procela e o arrolo da saudade
e da ternura”. E com essas armas na mão é que ele
se preocupava em levar os ouvintes a aguçar seu intelecto, para
desenvolver o espírito de análise, para acostumar-se à
calma e à ponderação, para tornar-se mais observador,
para aperfeiçoar-se no poder de concentração de
espírito e para obrigar-se à atenção. Tudo
isso, insistindo na análise sintática.
É assim que ele amava da língua portuguesa “o teu
viço agreste e o teu aroma de virgens selvas e de oceano largo!...
ó rude e doloroso idioma, em que da voz materna ouvi: ‘meu
filho!’ E em que Camões chorou, no exílio amargo,
o gênio sem ventura e o amor sem brilho!”.
P.S.: a) Artigo publicado simultaneamente nos periódicos A Hora
(São Luís – MA), Jornal da Cidade (Caxias –
MA) e O Dia (Teresina – PI).
b) Data da publicação no Jornal da Cidade, de Caxias (MA):
09/02/2003.