A visão política de nossos constituintes poderia ter
sido mais moderna e avançada, se tivessem tido contato com o
pensamento de João Paulo II.
O trabalho dos campos, além de ser fisicamente extenuante, é
pouco apreciado socialmente, a ponto de se sentirem os camponeses marginalizados
pela sociedade; daí o seu êxodo, em massa, para as cidades,
onde as condições de vida são por vezes ainda mais
desumanas. Mais: “em certos países em via de desenvolvimento,
há milhões de homens que se vêem obrigados a cultivar
as terras de outros e que são explorados pelos latifundiários,
sem esperança de... poderem chegar à posse nem sequer
de um pedaço de terra... Não existem formas de proteção
legal para a pessoa do trabalhador agrícola e para a sua família
nos casos de velhice, doença ou falta de trabalho. Longas jornadas
de duro trabalho físico são pagas miseramente. Terras
cultiváveis são deixadas ao abandono pelos proprietários;
títulos legais para a posse de um pequeno pedaço de terra,
cultivado por conta própria há anos, são preteridos
ou ficam sem defesa diante da fome da terra de indivíduos ou
de grupos mais potentes” (nº 21).
Diante de tais falhas, os homens de bem tomam consciência da necessidade
de promover especialmente a dignidade do trabalho agrícola, pelo
qual o homem de maneira expressiva submete a terra recebida de Deus
como dom e afirma o seu domínio sobre o mundo visível
(nº 21).
Outro item é o trabalho dos emigrantes (nº 23). É
o caso das pessoas que deixam a pátria de origem para procurar
trabalho em outro país.
Embora todo o homem tenha o direito de emigrar, tal realidade acarreta
situações que a ética cristã deve levar
em conta. O emigrante não deve ser constrangido, em terra estrangeira,
a aceitar condições de trabalho injustas, principalmente
quando confrontadas com a dos trabalhadores nativos do país que
o hospeda; ser explorado financeira ou socialmente; sofrer discriminação
por motivos de nacionalidade, religião ou raça. Seria
desejável que todo o homem pudesse encontrar em sua pátria
as condições de trabalho suficientes e justas que lhe
permitissem contribuir para o aumento do bem comum no seu próprio
país.
Outro problema que se impõe a quem estuda o trabalho é
a situação dos deficientes (nº 22). “A pessoa
que tem qualquer deficiência é um sujeito dotado de todos
os seus direitos, deve facilitar-se-lhe a participação
na vida da sociedade em todas as dimensões e a todos os níveis
que sejam acessíveis para as suas possibilidades. A pessoa deficiente
é um de nós e participa plenamente da mesma humanidade
que nós” (idem).
Ao tratar dos sindicatos e greves (nº 20), frisa o pontífice
que entre os direitos dos trabalhadores está o de se associarem
em sindicatos, com a finalidade de defender os justos interesses da
sua vida profissional. “O trabalho tem como característica,
antes de mais nada, unir os homens entre si, e nisto consiste a sua
força social: a força para construir uma comunidade”
(idem). A tutela dos justos direitos do trabalhador pode recorrer à
tática da greve; ela é legítima como recurso extremo
e dentro dos devidos limites.
Se Sua Santidade julga seu dever pronunciar-se sobre o trabalho numa
perspectiva ética (nº 24-27), sente-se também obrigado
a promover a espiritualidade do trabalho, apta a ajudar todos os homens
a se aproximarem de Deus através da sua labuta cotidiana.
No primeiro capítulo do Gênesis, o homem encontra o primeiro
“evangelho do trabalho”, que é a participação
na obra do Criador. O texto bíblico aponta o trabalho como continuação
da obra do Criador. A passagem bíblica (Gn 1, 1-2, 4a) tem em
mira chamar a atenção para o significado profundo do trabalho
que o homem, imagem e semelhança de Deus, realiza numa sociedade
(nº 25).
Igualmente, a espiritualidade do trabalho visa a participação
na Páscoa de Cristo (nº 26). “Ele próprio,
homem do trabalho, do trabalho artesanal como Jesus de Nazaré”
(idem), que, em suas parábolas, se refere a diversos tipos da
atividade humana: o pastor, o agricultor, o médico, o semeador,
o amo, o servo, o feitor, o pescador, o comerciante, o operário...
Fala também das atividades exercidas pelas mulheres, como alude
também ao trabalho dos estudiosos.
O apóstolo Paulo dedicava-se à confecção
de tendas (At. 18, 3) e formulou o princípio categórico:
“Quem não quer trabalhar também não há
de comer” (2 Ts 3, 10).
“O homem veio mais por aquilo que é do que por aquilo que
tem. Do mesmo modo, tudo o que o homem faz para conseguir mais justiça,
uma fraternidade mais difundida e uma ordem mais humana nas relações
sociais excede em valor os progressos técnicos. Com efeito, tais
progressos podem proporcionar a base material para a promoção
humana, mas, por si sós, de modo nenhum são capazes de
a realizar” (nº 26).
P.S.:Artigo publicado no periódico Jornal da Cidade (Caxias –
MA), em 28/12/2003.