A questão social foi evoluindo sem parar, e o seu problema foi
suscitando a crescente atenção dos católicos na
segunda metade de século XIX. Se não, vejamos:
Na Alemanha, destaca-se o bispo Guilherme Emmanuel von Ketteler (1811-1877),
de Mogúncia, chamado “o bispo combativo”. Em 1864,
publicou A Questão Operária e o Cristianismo (Die Arbeiterfrage
und das Christentum), pleiteando o direito de os operários se
associarem, a fim de promover interesses comuns, como: a) aumento de
salários correspondente ao valor do trabalho; b) diminuição
das horas de trabalho; c) regulamentação dos dias de descanso;
e d) proibição do trabalho das crianças, das mulheres
e das moças nas fábricas. O bispo considerava de frente
a questão social, como se punha em conseqüência da
revolução industrial. O seu principal continuador foi
o cônego Hitze, que, em 1890, publicou A Quinta-Essência
da Questão Social, afirmando que: “O verdadeiro senhor
em nossas sociedades é o capitalista, porque todos, empresários,
patrões e operários, estão à mercê
do capital. A solução só pode ser encontrada na
organização social das profissões.”
Na Áustria, o barão Karl von Vogelsang (1818-1890) fundou
a Associação Livre dos Políticos Sociais (Die Freie
Vereinigung Katholischer Sozialpolitiker), que protegia os pequenos
proprietários, os artífices, os operários de indústria,
propugnando: a) a condenação do capitalismo selvagem;
b) a rejeição do socialismo ou coletivismo; e c ) a promoção
de associações corporativas profissionais que fossem intermediárias
entre o Estado e os indivíduos.
Na Suíça sobressaem um bispo, mons. Gaspard Mermillod
(1824-1892), e um estadista, Gaspard Decurtins (1815-1916). Gaspard
Mermillod tornou-se o infatigável defensor de todos os necessitados...
dos irlandeses esfomeados... dos católicos búlgaros perseguidos,
dos poloneses exilados. O seu pensamento era claro: “Quem quer
penetrar até à raiz profunda de nossas agitações
atuais percebe bem depressa que ela reside na questão social,
...estamos numa época de transição... uma velha
sociedade está em ruínas e outra se vem formando.”
Gaspard Decurtins era homem de ação, escritor e estadista,
que deixou A Questão da Proteção Internacional
do Trabalhador (1899).
Na Inglaterra, intensamente industrializada, destacou-se no plano da
justiça social o cardeal Henry Edward Manning (1808-1891). Lutou
em prol da doutrina do justo salário, combateu os arrendamentos
usurários de terras impostos aos agricultores, deu seu apoio
aos movimentos profissionais, patrocinou o direito de greve e fez uma
intervenção em favor dos estivadores de Londres, em 1889,
conseguindo reconciliar entre si patrões e operários.
Acusado de socialista, respondia: “Não sei se para vós
isto é socialismo; para mim, é o mais puro cristianismo.”
Um discípulo seu, mons. Bagshawe, alguns anos mais tarde, escrevia:
“As classes abastadas falam de caridade, mas, se elas quisessem
restituir aos pobres o que lhes devem em estrita justiça, veriam
logo que o montante dessas restituições seria infinitamente
superior a suas pretendidas caridades.”
Nos Estados Unidos, o cardeal James Gibbons (1834-1921) tomou parte
no caso dos Cavaleiros do Trabalho (Knights of Labour), organização
operária que agia secretamente. Eis uma parte de seu memorial:
“O único poder do mundo que, há quase dezoito séculos,
fora sempre o protetor das classes pobres não as poderia abandonar
na hora da aflição...”
Destaques também dessa época foram Léon Harmel
(1829-1915), René de la Tour du Pin (1834-1924) e Albert de Mun
(1841-1914), na França, e Schaepman (1844-1903), Ariëns
(1860-1928), Aalberse (1871-1949) e Poels (1868-1948), na Holanda.
Na Bélgica, o industrial católico J. De Jaer escreveu
em 1872: “Enquanto os socialistas seguem por toda a parte um sistema
de propaganda idêntica, a burguesia assume uma atitude vacilante,
tímida, pouco leal, atitude do avestruz que esconde a cabeça
para furtar-se ao perigo.” Edouard Ducpétiaux, em 1864,
deu apoio à fixação legal de uma idade mínima
para a admissão de trabalhadores nas fábricas, limitação
do trabalho a doze horas diárias, proibição do
trabalho feminino no fundo das minas, regulamentação da
higiene do trabalho e sua inspeção administrativa. O prof.
Defourny, na História da Bélgica Contemporânea (Histoire
de la Belgique Contemporaine), notava que um grande chefe de indústria
de Gand estava convencido de que doze horas era um mínimo abaixo
do qual não se poderia reduzir a jornada de trabalho.
Esse, o pano de fundo dos direitos sociais existentes em 1891.
P.S.: Artigo publicado no periódico Jornal da Cidade (Caxias
– MA) em 26/10/2003.