Há pouco tempo, assisti a uma conferência sobre clareza
e elegância do período, em que o palestrante afirmou que
as obras dos nossos clássicos quinhentistas, seiscentistas, romancistas
e poetas são uma prova perfeita da autonomia da língua
portuguesa.
Lamentavelmente, esse raciocínio é um sofisma, pois, sob
as aparências da retidão, oculta um defeito em virtude
do qual a conclusão é errônea. É também
um paralogismo, porque peca sem que o pensador sempre tenha consciência
disso.
A isso se chega através das leis do raciocínio. A lógica
de Aristóteles é talvez o seu maior título de glória.
Por primeiro investigou cientificamente as leis do pensamento e formulou-as
com tal exatidão que, por confissão do próprio
Kant, nada lhe acrescentaram ou corrigiram os filósofos posteriores.
O conferencista fez de conta que o português não fosse
língua neolatina. Disse com todas as letras que é autônomo,
com raízes próprias, em face dos excelentes escritores
portugueses e brasileiros. Ora, isso é um sofisma de matéria,
ou seja, círculo vicioso, pois esses literatos abeberam-se nas
fontes latinas, origem do português.
Realmente, muitos de nossos autores são recomendáveis
pela harmonia e concatenação das orações,
bem como pelo conhecimento de vasto e erudito vocabulário. Data
venia, isso não significa a independência total das nossas
origens românicas.
Fazendo uma viagem histórica sobre os nossos homens de letras,
chegamos à conclusão de que a língua portuguesa,
neolatina, não tem tanta liberdade intelectual assim, mas bebe
nas águas da fonte do Lácio. Se não, vejamos e
analisemos:
Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro, é um poema em que
o autor mostra toda a suavidade e carinho no contar melancólico
de seus amores infelizes.
Os Lusíadas, de Camões, uma das grandes epopéias
da literatura universal, que manifesta os feitos do povo lusitano.
Sermões, de Vieira, são prédicas de estilo vivíssimo,
com descrições cheias de colorido, de propriedade, de
riqueza e adjetivação muito segura.
Nova Floresta, Luz e Calor, de Bernardes, são escritos numa linguagem
harmoniosa, majestosa e opulenta, com períodos maravilhosamente
elegantes, bem feitos e melodiosos.
Frei Luís de Sousa, Viagens na Minha Terra, Folhas Caídas,
Flores sem Fruto, de Garrett, demonstram estilo colorido e ao mesmo
tempo espontâneo.
Lendas e Narrativas, Eurico, o Presbítero, O Monge de Cister,
O Bobo, Harpa do Crente, de Alexandre Herculano, são modelo dos
que se dedicam a descrições, de modo sóbrio e,
a um só tempo, vigoroso e de linguagem pura.
Poesias e várias traduções, de Castilho, apresentam
expressão variada, elegante e abundante.
Amor de Perdição, Amor de Salvação, A Corja,
Eusébio Macário, de Camilo, são romances de propriedade
e variedade assombrosas, de maneira de escrever admiravelmente segura
e enérgica.
O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio, O Mandarim, Os Maias,
A Relíquia, de Eça de Queirós, têm um modo
de expressar-se nem sempre puro, mas flexível e irônico.
Os Simples, Orações, de Junqueiro, desvelam o poeta satírico
e mordaz.
Primeiros Cantos, Novos Cantos, Últimos Cantos, de Gonçalves
Dias, descobrem a obra do poeta indianista, o maior poeta lírico
brasileiro.
O Guarani, As Minas de Prata, Iracema, O Tronco do Ipê, O Sertanejo,
A Mãe, de José de Alencar, divulgam a visão do
romancista indianista, de lirismo imaginoso e de forma brilhante.
Crisálidas, Falenas, Histórias da Meia-Noite, Iaiá
Garcia, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas
Borba, Dom Casmurro, A Mão e a Luva, de Machado de Assis, exibem
o naturalista, clássico na linguagem e moderado na expressão.
Primeiros Sonhos, Sinfonias, Poesias, de Raimundo Correia, fazem ver
o poeta parnasiano, de espírito pessimista, mas claro e discreto,
o maior ourives dos ourives parnasianos.
Canções Românticas, Meridionais, Sonetos e Poemas,
Versos e Rimas, Céu, Terra e Mar e muitas outras obras, de Alberto
de Oliveira, fazem conhecer o grande poeta que, desde os 14 anos, revelou
sentimento e entusiasmo, vigor e opulência, melancolia e paixão,
malícia e ironia.
Via-Láctea, Sarças de Fogo, O Caçador de Esmeraldas,
Alma Inquieta, de Olavo Bilac, poeta parnasiano, expõem à
vista versos impecáveis e espontâneos, de imagens e expressões
brilhantemente coloridas.
Os Sertões, Contrastes e Confrontos, Martim Garcia, À
Margem da História, Peru versus Bolívia, de Euclides da
Cunha, evidenciam um dos maiores literatos brasileiros, de espírito
observador levado ao grau sumo.
A leitura permanente e continuada dos nossos escritores aponta sem dúvida
a sua robustez e nos dá alguma segurança vernácula.
Infelizmente, porém, os textos lidos escondem a fonte dos nossos
vocábulos, a sua origem e o estudo dos étimos, porque
nosso idioma não é autônomo. Ele originou-se, na
quase totalidade, lenta, progressiva e ininterruptamente, da língua
latina. E só tem segurança em português quem conhece
latim.
P.S.: a) Artigo publicado simultaneamente nos periódicos A Hora
(São Luís – MA), Jornal da Cidade (Caxias –
MA) e O Dia (Teresina – PI).
b) Data da publicação no Jornal da Cidade, de Caxias (MA):
02/02/2003.