Com a morte do último apóstolo de Cristo, surgiram escritores
que, nos primeiros séculos, contribuíram para a reta formulação
das verdades da fé ante as heresias. A sua época vai até
Gregório Magno (604) no Ocidente e João Damasceno (749)
no Oriente. Movia-os a concepção grandiosa de que Deus
é o único Proprietário de todos os bens e o homem
é seu ministro na gestão deste mundo. Essa idéia
estava associada ao regime teocrático do povo de Israel, mas
a patrística já ensinava que o Senhor costuma conceder
ao homem uma participação nos seus direitos, comunicando
à criatura humana certo domínio sobre os seres inferiores.
A Didaqué ou Doutrina dos Apóstolos data de fins do século
I. Enfatiza o desprendimento do coração e a partilha dos
bens: “Não repelirás o indigente, mas antes repartirás
tudo com teu irmão; nada considerarás como teu, pois,
se divides os bens da imortalidade, quanto mais o deves fazer com os
corruptíveis?” (4, 8).
Clemente de Alexandria (215) afirma que as riquezas são dadas
ao homem pela munificência de Deus bom; como tais, não
são nem boas nem más; é o homem que lhes dá
a sua qualificação ética.
Com o edito de Milão, no século IV (313), o imperador
Constantino deu a paz aos cristãos perseguidos, o que possibilitou
aos escritores pronunciamentos mais explícitos sobre a conduta
moral da sociedade de seu tempo.
Basílio (379) destacou-se em pregar justiça e senso humanitário,
insurgindo-se contra a ganância egoísta em muitos textos:
“Possuir mais do que o necessário é prejudicar os
pobres, é roubar. Quem despoja das suas vestes um homem terá
o nome de ladrão. E quem não veste a nudez do mendigo,
quando o pode fazer, merecerá outro nome? Ao faminto pertence
o pão que tu guardas. Ao homem nu, o manto que fica nos teus
baús. Ao descalço, o sapato que apodrece na tua casa.
Ao miserável, o dinheiro que tu guardas enfurnado.” (Homilia
6, 7).
Gregório de Nazianzo (329-390), um dos maiores oradores cristãos
de todos os tempos, proferiu notável discurso sobre o amor aos
pobres: “Tu, robusto, ajuda o enfermo; tu, rico, ajuda o necessitado.
Tu, que não caíste, ajuda ao que caiu e está atribulado;
tu, que estás animado, ajuda ao desalentado; tu, que gozas de
prosperidade, ao que sofre na adversidade.”
Ambrósio (397), em Milão, na mesma época, retoma
a idéia: “A natureza desconhece os ricos, ela que nos dá
à luz todos pobres. Em verdade, não nascemos vestidos.
Não somos criados com ouro e prata... Aliás, não
são os teus bens que distribuis ao pobre; são apenas os
dele que lhe destinas. Pois o que fazes é usurpar só para
teu uso o que é dado a todos e para ser utilizado por todos.”
(Tratado sobre Nabot, 55).
João Crisóstomo (407) pregava com a eloqüência
de “boca de ouro” (crysóstomos) contra os abusos
morais da corte: “Não deveis dizer: ‘Eu gasto o que
é meu, eu gozo daquilo que é meu.’ Não, não
daquilo que é vosso, mas daquilo que é do outro... Esses
bens não vos pertencem; pertencem em comum a vós e a vossos
semelhantes, como são comuns o céu e a terra e tudo o
mais.” (Hom. 10).
Agostinho, no século V (430), um dos maiores gênios da
humanidade, escreve com profundidade do conteúdo mas também
com elegância da forma, desmascarando a eventual soberba e auto-suficiência
de quem possui: “Não se considerem pobres somente os que
não têm dinheiro. Observe cada um em que é pobre,
porque talvez seja rico sob outro aspecto e possa prestar ajuda. Talvez
possas ajudar alguém com teus braços e até mais
do que se o ajudasses com teu dinheiro. Aquele lá precisa de
um conselho e tu sabes dá-lo; nisto ele é pobre e és
rico, e então nada tens que perder; dá-lhe um bom conselho
e faze-lhe tua esmola.” (Comentário ao salmo 125).
Paulino de Nola (431) preocupou-se também com a temática
“riqueza-pobreza”, que assim explana, com relação
ao óbolo da viúva: “Lembremo-nos... daquela viúva
que, despreocupada com os seus... deu aos pobres tudo o que lhe restava
de alimento.” (Mc 12, 41-44).
João Cassiano (430/435) deixou escritos de espiritualidade nos
quais aparece enfaticamente a preocupação com a pobreza
interior: “Acontece com alguns que, tendo desprezado consideráveis
fortunas, enormes somas de prata e ouro, magníficas posses, se
deixaram depois prender por um escalpelo, um lápis, uma agulha,
ou pena de escrever. Se tivessem visado sempre a pureza de coração,
não cairiam por bagatelas, depois de preferirem despojar-se de
bens preciosos antes que se sujeitar a eles.” (Conferência
1ª).
A patrística surpreende o leitor moderno pela audácia
de suas afirmações, que, na verdade, são a expressão
do Evangelho e conservam plena atualidade com relação
aos direitos sociais.
P.S.: Artigo publicado no periódico Jornal da Cidade (Caxias
– MA) em 12/10/2003.