Tempos atrás, assisti a uma conferência religiosa em que
o pregador fazia a apologia do sofrimento. Explicava aos ouvintes que
o sofrimento é uma bênção divina, uma caminhada
para Deus, uma provação do Alto, uma identificação
com Cristo.
Diante dessas palavras, onde ficam os direitos sociais (CF art. 7º)?
Hoje penso que, se o sofrimento fosse uma bênção
divina, Deus seria sádico, porque se comprazeria com os males
dos outros. Se fosse identificação com Cristo, por que
os cristãos buscam a medicina e os meios possíveis, a
fim de se libertarem do sofrimento?
O Novo Testamento retorna e leva ao auge as grandes lições
do Antigo Testamento referentes à justiça.
A epístola de São Tiago, escrita por um judeu cristão
muito fiel a certos princípios da tradição israelita,
faz ressoar advertências dos profetas aos proprietários
injustos: “Pois bem, agora vós, ricos, chorai e gemei por
causa das desgraças que estão para vos sobrevir. A vossa
riqueza apodreceu e as vossas vestes estão carcomidas pelas traças.
O vosso ouro e a vossa prata estão enferrujados e a sua ferrugem
testemunhará contra vós e devorará as vossas carnes.
Entesourastes como que um fogo nos tempos do fim. Lembrai-vos de que
o salário do qual privastes os trabalhadores que ceifaram os
vossos campos clama, e os gritos dos ceifeiros chegaram aos ouvidos
do Senhor dos exércitos. Vivestes faustosamente na terra e vos
regalastes; vós vos saciastes no dia da matança. Condenastes
o justo e o pusestes à morte: ele não vos resiste.”
(Tg 5, 1-6).
Em Lucas 16, 19-31, Jesus apresenta um ricaço, que vivia em seus
aposentos no gozo de fartura e bem-estar. À porta da casa jazia
um pobre chamado Lázaro, que lhe fazia contraste, pois era coberto
de úlceras e tinha os cães por companheiros. Não
diz o Senhor que o pobre pedia esmola e o ricaço, inclemente,
não lhe dava... Não obstante, quando morreram, o homem
rico foi condenado, ao passo que Lázaro se viu premiado... Por
quê? – A seqüência da parábola dá
a entender que o mal do ricaço foi ter-se deixado afagar pelos
bens deste mundo, que lhe embotaram a mente e fizeram que morresse sem
fome material e sem anseios transcendentais; por conseguinte, nada tinha
que receber na outra vida; ao contrário, Lázaro morreu
com fome... fome de pão, mas também fome de bens maiores;
a pobreza conservou-lhe a intuição de que o homem não
foi feito somente para a vida terrestre!
A sobriedade é vivamente recomendada nos escritos do Novo Testamento,
porque favorece a liberdade do coração e torna a pessoa
mais apta para cultivar os valores espirituais e definitivos.
É por isso que, quando um jovem perguntou a Jesus o que deveria
fazer de bom para possuir a vida eterna, o Senhor lhe apontou primeiramente
a observância dos mandamentos e, a seguir, lhe deu o conselho:
“Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens e dá aos
pobres, e terás um tesouro nos céus. Depois, vem e segue-me.”
(Mt 19, 16-21). Diante dessa orientação, o jovem recuou
triste, “pois era possuidor de muitos bens” (19, 22). O
fervor arrefeceu por causa do apego à matéria!
São Paulo apregoa a simplicidade de vida aconselhada por Jesus
e mostra os perigos da avareza: “Pois nós nada trouxemos
para o mundo, nem coisa alguma dele podemos levar. Se, pois, temos alimento
e vestuário, contentemo-nos com isso. Ora, os que querem se enriquecer
caem em tentação e cilada, e em muitos desejos insensatos
e perniciosos, que mergulham os homens na ruína e na perdição.
Porque a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro, por cujo
desenfreado desejo alguns se afastaram da fé, e a si mesmos se
afligem com múltiplos tormentos.” (1 Tm 6, 7-10).
Para praticar a sobriedade, os antigos cristãos exerciam a comunhão
espontânea de bens: “Todos os que tinham abraçado
a fé reuniam-se e punham tudo em comum: vendiam suas propriedades
e bens, e dividiam-nos entre todos, segundo as necessidades de cada
um.” (At 2, 44s). “Não havia entre eles necessitado
algum. De fato, os que possuíam terrenos ou casas, vendendo-os,
traziam os valores das vendas e os depunham aos pés dos apóstolos.
Distribuía-se, então, a cada um, segundo a sua necessidade.”
(At 4, 34s). “José, a quem os apóstolos haviam dado
o cognome de Barnabé... sendo proprietário de um campo,
vendeu-o e trouxe o dinheiro, depositando-o aos pés dos apóstolos.”
(At 4, 36s). Essa espontânea partilha de bens, com renúncia
à propriedade particular, favorece o senso de solidariedade e
fraternidade entre os primeiros cristãos.
Ananias e Safira venderam também um campo seu, mas entregaram
aos apóstolos apenas uma parte do preço respectivo, retendo
consigo a outra parte. Foram punidos não por haver guardado uma
parte do que possuíam legitimamente, mas por haver tentado enganar
os apóstolos e, através deles, o Espírito Santo.
Disse Pedro a Ananias: “Ananias, por que encheu Satanás
o teu coração para mentires ao Espírito Santo,
retendo parte do preço do terreno? Porventura, mantendo-o não
permaneceria teu e, vendido, não continuaria em teu poder? Por
que, pois, concebeste em teu coração este projeto?”
(At 5 , 1-4).
O Novo Testamento reconhece a legitimidade da riqueza honesta, mas chama
a atenção para a sedução e o poder escravizador
que ela pode exercer sobre o coração do homem. Daí
a enfática recomendação da simplicidade e solidariedade
de vida.
P.S.: Artigo publicado no periódico Jornal da Cidade (Caxias
– MA), em 5/10/2003.