As dificuldades externas do fim da Idade Média não impediram que o período fosse frutífero no tocante ao pensamento, à literatura e à arte.
Depois de 1300 a teologia e a filosofia passaram por uma crise de dúvidas, Tais incertezas não eram relativas à existência de Deus e a seus poderes sobrenaturais, mas antes à capacidade humana de apreender o que está além do natural.
As enchentes, as geadas, as guerras e as pestes do século 14 haviam contribuído para minar essa confiança nos poderes da razão humana. Ao encarar o universo como arbitrário e imprevisível, os seus pensadores começaram a imaginar se não haveria no céu e na terra mais coisas do que poderiam ser explicadas por suas vãs filosofias (There are more things in heaven and earth, Horatio, than are dreamt of in your philosophy – Shakespeare - Hamlet, scene V).
Guilherme de Ockham (William of Ockham - 1285-1349), persuadido pelos acontecimentos de sua época, expressou suas incertezas com enorme vigor. Desenvolveu o nominalismo ou conceptualismo ao afirmar que só coisas, tomadas individualmente, são reais. Na sua lógica as palavras representam tão só a si mesmas, e não coisas reais. Esse raciocínio não poderia ser refutado, pois tinha validade interna em seus próprios termos, como a geometria euclidiana.
Tal modo de pensar teve vários efeitos importantes no desenvolvimento da filosofia ocidental.
Seus seguidores perguntavam se Deus pode desfazer o passado ou se um número infinito de puros espíritos podem habitar simultaneamente no mesmo lugar. A ênfase dada à preservação da autonomia de Deus levou a uma acentuação da onipotência divina.
Além do mais, a sua determinação em procurar certezas no domínio do conhecimento humano ajudou a debater os assuntos humanos e a ciência natural sem as explicações sobrenaturais, um dos fundamentos basilares do moderno método científico.
Igualmente, sua recusa de aplicar a lógica a coisas reais contribuiu para estimular o empirismo, ou seja, a convicção de que o conhecimento do mundo deveria repousar na experiência dos sentidos e não na razão abstrata.
Essa busca de verdade segura encontrou certos paralelos no terreno da literatura. Sua principal característica foi o naturalismo, uma tentativa de descrever as coisas como realmente são. Isso representou explanações da conduta humana por homens como Chrétien de Troyes – (1135-1183), Wolfram von Eschenbach – (1160-1220) e Dante Alighieri – (1265-1321).
Os autores ficaram encorjados a procurar entreter os leitores, descrever os personagems de modo realista, com todas as suas virtudes e fraquezas. Tudo isso escrito em línguas vulgares em vez do latim. Fato esse, fruto da necessidade de segurança e do orguho pela identidade nacional, refletida no emprego do idioma vernáculo.
A propagação da educação para o laicato aumentou enormemente um público capaz de ler numa língua vernácula, não mais em latim. A Itália e a Inglaterra passaram a empregar seus idiomas pátrios com expressivo efeito literário.
Giovanni Boccaccio (1313-1375) foi o maior autor de ficção em prosa a usar o vernáculo. Sua mais importante obra é o Decamerão (Decameron), escrito entre 1348 e 1351. Coletânea de cem histórias a respeito de amor, sexo, aventuras e estratagemas astuciosos, narrados por um grupo de sete moças e três rapazes que, refugiados numa mansão compestre nas cercanias de Florença, buscavam ali escapar da peste negra.
A prosa de Boccaccio é moderna, pois fez uso de um estilo coloquial. Ele desejava retratar homens e mulheres como realmente são e não como deveriam ser.
Suas mulheres não são bonecas pálidas, deusas distantes ou virgens obstinadas, mas criaturas de carne e osso com intelecto, que se relacionam com a maior naturalidade. No seu mundo, os desejos naturais, tanto de homens como de mulheres, não devem ser reprimidos. Decamerão é uma percepção robusta e deliciosa de tudo quanto é humano.
Rio de Janeiro, 14 de junho de 2009.
____________
N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero occidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).
|