A Bíblia de Jerusalém, no livro do Gênesis, 11,
1-9, menciona que uma grande torre foi construída no país
de Senaar, mas ficou incompleta porque Yahweh confundiu as línguas
dos construtores. Por essa razão, a cidade foi chamada Babel,
ou “confusão” (do hebr. balal, misturar, confundir).
Como relato da origem da diversidade das línguas, a narração
é evidentemente fantástica e a etimologia balal-babel
é popular. Hoje, a torre pode ser identificada com um zigurate,
montanha cósmica, símbolo da própria terra, montanha
divina, morada dos deuses. Assim, a montanha seria um intermediário
entre o céu e a terra, através do qual os homens ascendem
aos deuses e estes descem para se manifestar no cimo da montanha. Essa
interpretação encontra certa base em Gn 11, 4, “uma
torre cujo ápice penetre nos céus” – e talvez
seja indicada pelo sonho de Jacó (Gn 28, 11-19).
Os exegetas explicam a diversidade dos povos e das línguas como
o castigo de uma falha coletiva que, como a dos primeiros pais, é
ainda uma falta por excesso.
A partir dessa punição por uma culpa de muitas pessoas
é que se vislumbra o tronco indo-europeu, língua pré-histórica,
da qual não se tem registro, e que deu origem às seguintes
línguas ou grupos de línguas: sânscrito, armênio,
teutônico, baltoeslávico, celta, grego e latim.
Com a globalização do mundo, o estudo do inglês
ficou muito difundido, tornando-se a segunda língua de muita
gente, além da sua de nascença. O que nem todos sabem
é que metade das palavras inglesas é de origem latina,
direta ou indiretamente.
Hoje, o latim é o grande denominador comum de todas as línguas
neolatinas, fonte comum das línguas românicas, como o romeno,
o dálmata, o provençal, o francês, o sardo, o italiano,
o espanhol e o português.
No Brasil, é considerado língua morta, não usada
por nenhum povo ou tribo, mas que sobrevive em documentos.
Como ter segurança em português, língua neolatina?
Centenas de professores respondem sem pestanejar: lendo os autores e
suas obras.
Tal resposta é corretíssima. Mas isso exige muitos anos
de leitura. Mais fácil seria ir à língua mãe
ou língua matriz, pois nosso idioma, na quase totalidade, originou-se
lenta, progressiva e ininterruptamente do latim e, literariamente, começou
a constituir-se somente no lapso do século 12, com a fundação
da monarquia em 1139.
Dada a semelhança com o latim (homo, homem, hombre, uomo, homme),
alguém se torna rapidamente poliglota e se comunica facilmente
em Portugal, Espanha, Itália e França. Com a União
Européia, o jovem tem mais facilidade de emprego nos países
neolatinos.
A razão dessa similitude é que essa língua estendeu
o seu domínio por toda a Itália, pela Córsega,
pela Sicília, pela Sardenha, pela Espanha, fazendo desaparecer
a língua indígena dos iberos, percorreu a Gália,
a Suíça ocidental e meridional, as bacias do Mediterrâneo
e do Danúbio.
Júlio César, célebre general romano, nascido em
Roma em 101 antes de Cristo, enviado à Espanha em 60, logrou
algumas conquistas. Governador da Gália, conquistou toda a nação
e chegou até a Inglaterra.
E as legiões romanas eram compostas de soldados romanos, ilíricos,
espanhóis e africanos, que falavam o sermo plebeius, o latim
vulgar ou popular e campesino. Desse latim popular, falado e não
escrito, é que se originaram a nossa língua, “última
flor do Lácio, inculta e bela”, e todos os idiomas neolatinos,
graças à lendária e bíblica torre de Babel.
E só tem segurança em português quem conhece latim.
P.S.: a) Artigo publicado simultaneamente nos periódicos A Hora
(São Luís – MA), Jornal da Cidade (Caxias –
MA) e O Dia (Teresina – PI).
b) Data da publicação no Jornal da Cidade, de Caxias (MA):
23/01/2003.