As novelas da Rede Globo, em várias oportunidades, mostraram
pessoas internadas como loucas, em hospitais psiquiátricos, com
a conivência dos seus dirigentes, para que parentes pudessem usufruir
do seu patrimônio. Que diz a Constituição sobre
isso? “Todos são iguais perante a lei (...), garantindo-se
(...) a inviolabilidade do direito (...) à liberdade...”
(art. 5º, caput).
A Revolução Francesa é um dos acontecimentos que
mais profundamente alteraram a forma da civilização ocidental.
Com ela começou a História Moderna. A partir dela veio
a derrubada do absolutismo e dos últimos vestígios do
regime senhorial, garantindo o desenvolvimento da consciência
de classe. O lema liberdade (liberté) ecoou em todo o mundo,
levando à queda do antigo regime (Ancien Régime), pondo
fim aos privilégios da nobreza.
No antigo Egito (3500 a.C.), os escravos constituíam a sétima
classe. Desprezados por todos, eram forçados a trabalhar nas
pedreiras do governo e nas terras pertencentes aos templos.
Os escravos romanos (140 a.C.) não eram considerados propriamente
como homens, mas como instrumentos de produção, como bois
ou cavalos, que deviam trabalhar para render muito lucro aos amos. A
política dos seus senhores era tirar deles o máximo de
trabalho possível e depois, quando envelheciam e se tornavam
inúteis, libertá-los para que fossem alimentados pelo
Estado.
Espártaco, pastor trácio reduzido à escravidão
e convertido em gladiador, em Cápua, chefiou a maior revolta
servil da antiguidade, paralisando Roma durante dois anos. Em 73 a.C.,
evadiu-se da escola de Cápua com algumas dezenas de gladiadores,
aos quais se juntaram milhares de escravos. Entrincheirados nas encostas
do Vesúvio, derrotaram as tropas romanas enviadas para subjugá-los.
Conduzindo os escravos para fora do império, com o propósito
de levá-los de volta às suas pátrias, Espártaco
marchou em direção à Itália do Norte, chegando
até o Pó; lá, sem razão aparente, deu meia-volta
e retornou à Lucânia (72 a.C.). Roma confiou, então,
o comando de uma força excepcional a M. Licínio Crasso,
que, dispondo de dez legiões, infligiu aos sublevados a derrota
definitiva na qual Espártaco foi morto. Que é que Espártaco
queria? A sua revolta tinha por objetivo a conquista dessa liberdade
elementar do ser humano.
Entre as realizações mais significativas da Revolução
Francesa está a abolição da escravatura (1792).
É difícil a conceituação da palavra liberdade.
Resistência à opressão ou à coação
da autoridade ou do poder? Participação da autoridade
ou do poder? Ausência de toda a coação anormal,
ilegítima e imoral?
Charles de Secondat, barão de La Brède e de Montesquieu
(1689-1755), no livro L’esprit des lois, XI, 3, dizia que “a
liberdade política não consiste em fazer o que se quer.
Num Estado, isto é, numa sociedade onde há leis, a liberdade
não pode consistir senão em poder fazer o que se deve
querer, e a não ser constrangido a fazer o que não se
deve querer”. E acrescenta: liberdade é “o direito
de fazer tudo o que as leis permitem” (la liberté signifie
le droit non pas de tout faire mais de faire tout ce que les lois permettent).
A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão,
de 1789, diz que “a liberdade consiste em poder fazer tudo que
não prejudique a outrem. Assim, o exercício dos direitos
naturais do homem não tem limites, senão aqueles que asseguram
aos outros membros da sociedade o gozo desses mesmos direitos; seus
limites não podem ser determinados senão pela lei”
(Déclaration des droits de l’Homme et du Citoyen, de 26/08/1789.
Article 4 – La liberté consiste à pouvoir faire
tout ce qui ne nuit pas à autrui: ainsi, l'exercice des droits
naturels de chaque homme n'a de bornes que celles qui assurent aux autres
membres de la société la jouissance de ces mêmes
droits. Ces bornes ne peuvent être déterminées que
par la loi). Mas acrescenta: “A lei não tem o direito de
impedir senão as ações nocivas à sociedade.”
(Article 5 – La loi n'a le droit de défendre que les actions
nuisibles à la société).
Jean Rivéro (+ 2001) dizia: “A liberdade é um poder
de autodeterminação em virtude do qual o homem escolhe
por si mesmo seu comportamento pessoal.” (Les droits de l’homme
sont des libertés. Ils permettent à chacun de conduire
sa vie personnelle comme il l'entend. Ils lui confèrent une sphère
d’autonomie dans laquelle la société ne peut s’immiscer
– Les libertés publiques, I. Les droits de l’Homme,
p. 14). Ou seja, liberdade é a possibilidade de coordenação
consciente dos instrumentos necessários à realização
da felicidade pessoal, dentro da sua acepção político-jurídica.
P.S.: Artigo publicado no periódico Jornal da Cidade (Caxias
– MA) em 20/07/2003.