Os autores da ciência do poder da mente são unânimes
em afirmar que você, quando nasceu, era pura alegria e amor. Bebezinho,
tinha consciência de sua importância e sentia-se o centro
do universo. Possuía tanta coragem, pedia tudo o que queria e
expressava abertamente seus sentimentos. Você amava-se por completo,
gostava de cada parte do seu corpo, inclusive de suas fezes. Você
sabia que era perfeito. Essa, a verdade da sua existência.
Com o passar do tempo, foi aceitando as opiniões de outras pessoas
e incorporando-as às suas próprias crenças. Assim,
já com outra personalidade, dizia: “Eu sou assim mesmo;
as coisas são assim mesmo”. Recebendo como verdade tudo
o que ouvia e que se ajustava a esse modelo mental, você repetia:
“Não confie em estranhos”, “não saia
sozinho à noite”, “os outros só querem tirar
vantagem” – e assim por diante.
Sem refletir sobre essas crenças e sem questioná-las,
você entrou numa prisão e ficará nela enquanto não
resolver mudar esse esquema mental negativo.
Quer sair dessa masmorra? Quer ser livre? Dê um golpe seco e duro
nas amarras que o prendem e siga serenamente seu caminho, sem lançar
uma olhadela sequer sobre os pedaços da corrente caídos
no chão. Aí, sim, você será livre, sem traumas,
complexos, medos, preocupações, preconceitos, crenças,
conceitos, dogmas, pregações, ameaças, obrigações,
temores e desacertos da vida passada.
A Constituição diz que “todos são iguais
(...), garantindo-se (...) a inviolabilidade do direito (...) à
liberdade...” (art. 5º, caput).
Que é liberdade? No ensino fundamental, ao estudar a bandeira,
o hino, as armas e o selo nacionais, símbolos da República
Federativa do Brasil (art. 13, § 1º), aprendemos o lema da
Inconfidência Mineira: Libertas quae sera tamen. Só não
nos ensinaram que ele fora tirado mutiladamente do verso de Públio
Virgílio Marão (70-19 a.C.), Écloga, I, 27: “A
liberdade, a qual, mesmo tardia, contudo olhou para mim inerte”
(Libertas quae, sera, tamen respexit inertem).
Nossa vontade tende necessariamente para o bem real ou aparente. Mas
o bem que se oferece é múltiplo, compreendendo graus numerosos.
Por isso, entre os bens de valor desigual, devemos escolher. E escolher
supõe liberdade. Que liberdade é essa? A liberdade física,
civil, relativa a fatores extrínsecos ou à coação,
permite a você viajar, trabalhar, estudar, sem qualquer constrangimento
físico ou moral. A liberdade psicológica ou de arbítrio,
relativa a fatores intrínsecos, significa autodeterminação:
a pessoa não é coagida por taras ou paixões. É
a liberdade de exercício (você pode agir ou não
agir) ou liberdade de especificação (caso aja, pode agir
deste ou daquele modo).
A liberdade de arbítrio é fundamental, pois tem sua raiz
na natureza espiritual da alma humana. Numa biblioteca, não sou
obrigado a ler tal livro. Depois que examinar o catálogo, escolho
livremente ler determinada obra.
Na vida diária, o homem sente-se obrigado a cumprir certos atos
e abster-se de outros. Esse sentimento de obrigação supõe
a liberdade de cumprir e não cumprir. As pessoas são obrigadas
a praticar a justiça, porque podem não a cumprir, mas
não são obrigadas a digerir, porque não são
livres para não digerir.
Atribui-se a todo o homem sadio determinada cota de responsabilidade.
Só pode alguém responder se seus atos são livres
e na medida em que são livres. Suprimida a liberdade, suprime-se
também a responsabilidade.
Quando decidimos fazer algo, sabemos que poderemos decidir diversamente,
como também, ao executá-lo, somos conscientes de que poderemos
voltar atrás ou abandonar simplesmente a execução
da obra.
Immanuel Kant (1724-1804), embora crítico em relação
ao conhecimento humano na Crítica da Razão Pura (Kritik
der reinen Vernunft), admitia, na Crítica da Razão Prática
(Kritik der praktische Vernunft), a liberdade de arbítrio como
postulado sem o qual não poderia haver moralidade.
Jean-Paul Sartre (1905-1980), em O Ser e o Nada (L’Être
et le Néant, p.61), é taxativo: “A liberdade humana
precede a essência do homem e a torna possível. A essência
do ser humano fica em suspenso na sua liberdade. O que chamamos de liberdade
é, pois, impossível de distinguir do ser da ‘realidade
humana’.”
O que há de mais significativo no existencialismo sartriano é
a intenção de ordem moral, ou o movimento moral de “recuperação
por si próprio do ser apodrecido”, recurso supremo à
liberdade, pela qual Sartre não nega, mas decide transcender
à falência ontológica descrita em O Ser e o Nada
(L’Être et le Néant). Por isso, “não
podemos jamais escolher o mal. O que escolhemos é sempre o bem.
Nada pode ser bom para nós sem o ser para todos” (O Existencialismo
é um Humanismo – L’Existentialisme est un humanisme
–, p. 25-26). Sartre não alude a qualquer valor universal
em si. Pensa apenas na solidariedade humana, em virtude da qual, escolhendo
para mim, escolho para o gênero humano.
P.S.: Artigo publicado no periódico Jornal da Cidade (Caxias
– MA) em 13/07/2003