Nenhuma das nações
antigas possuía tamanha dedicação à liberdade,
pelo menos para si própria, ou uma crença tão firme
na nobreza das realizações humanas.
Os gregos glorificavam o homem como a mais importante criatura do universo
e recusavam submeter-se às imposições dos sacerdotes
ou dos déspotas ou até mesmo humilhar-se diante de seus
deuses. As suas atitudes eram essencialmente laicas e racionalistas.
Exaltavam o espírito de livre exame e colocavam o conhecimento
acima da fé.
Denomina-se Idade das Trevas o período de 1200 a 800 a.C., pré-história
helênica. Parece que o seu início teve lugar a partir da
suposta invasão dórica do final da civilização
micênica no século 11 a.C., cujo fim é marcado pela
ascensão das primeiras cidades-estados no século 9º
a.C., pela literatura épica de Homero e pelos primeiros registros
escritos a utilizarem o alfabeto, no século 8º a.C. Nesse
tempo, a cultura retornou a formas mais simples do que aquelas que os
haviam tornado conhecidos durante séculos.
Os seus dois poemas épicos, Ilíada e Odisseia, fornecem-nos
rico tesouro de informações sobre os costumes e as instituições
dessa época. A Ilíada procura relatar os acontecimentos
ocorridos nos 50 dias do décimo e último ano da guerra
de Troia, cuja gênese se radica na cólera de Aquiles. A
Odisseia é um poema de nostos (palavra grega que significa regresso),
em 24 cantos, que mostra os eventos da viagem do rei Odisseu (ou Ulisses),
de Ítaca, que voltava da guerra de Troia.
As instituições políticas eram primitivas. O basileus
não era mais do que um chefe tribal. Não podia fazer ou
executar leis nem administrar justiça. Suas únicas funções
eram militares e sacerdotais.
A sua consciência política estava tão pouco desenvolvida
que não havia qualquer concepção do governo como
uma força indispensável à preservação
da ordem pública. Quando Odisseu (ou Ulisses), senhor de Ítaca,
esteve ausente durante 20 anos, não foi designado nenhum regente
para substituí-lo nem se convocou uma sessão de conselho
ou assembleia.
A sua vida social e econômica era muito simples. O trabalho manual
não era considerado degradante. As ocupações básicas
dos cidadãos eram a agricultura e a pecuária.
Para os helenos da Idade das Trevas, a religião era um sistema
para: 1) explicar o mundo físico, de modo que afastasse seus
mistérios inquietantes; 2) interpretar as paixões tempestuosas
que se apoderam dos homens, levando-os a perder o autodomínio;
3) obter benefícios concretos, como boa sorte, vida longa, habilidade
em seu ofício e colheitas abundantes. Sua religião não
possuía mandamentos, dogmas ou sacramentos.
As suas divindades eram apenas seres humanos ampliados, deuses com os
quais podiam negociar em pé de igualdade. Eram dotados de atributos
semelhantes aos dos homens, brigavam entre si, necessitavam de alimento
e sono, misturavam-se livremente com os homens e até, às
vezes, tinham filhos de mulheres mortais. A única diferença
é que se alimentavam de ambrosia e de néctar, o que lhes
conferia imortalidade. Não moravam no céu ou nas estrelas,
mas no monte Olimpo, um pico no norte da Grécia.
A sua religião politeísta tinha Zeus como o deus do céu
e manejador do raio. Poseidon era o deus do mar. Afrodite, a deusa da
beleza e do amor, e Atena, deusa da sabedoria, do ofício, da
inteligência e da guerra justa. Todas as divindades eram capazes
tanto do mal como do bem.
Indiferentes ao que lhes aconteceria depois da morte, supunham que as
sombras dos homens iam para o mundo dos mortos ou Hades, governado por
Hades, deus do inferno, lugar situado debaixo da terra. Os poemas homéricos
fazem menção ocasional aos Campos Elíseos e ao
Tártaro. Nos Campos Elíseos estavam as pessoas que os
deuses haviam resolvido favorecer. O reino do Tártaro era a prisão
para as divindades rebeldes. Personificação do inferno,
para onde eram enviados todos os inimigos do Olimpo, para serem castigados
por seus crimes.
O culto consistia em sacrifícios. As oferendas eram para agradar
aos deuses e induzi-los a conceder-lhes favores. A sua prática
religiosa era externa e mecânica, não muito distante da
magia e da mitologia. O adorador fazia o sacrifício apropriado
e ficava a esperar pelo melhor.
Essa religião não requeria instituições
complicadas. Sem ritos e sacramentos, um homem poderia celebrar os ritos
simples tão bem como qualquer outro. O templo era um santuário
que o deus podia visitar e usar como morada temporária.
A sua ética na Idade das Trevas tinha vaga ligação
com sua religião. Os deuses, ao dispensar recompensa aos homens,
eram levados mais pelo capricho ou pela gratidão que lhes inspirava
a oferenda de sacrifício do que por qualquer consideração
de índole moral. As virtudes louvadas nos poemas épicos
eram bravura, autodomínio, sabedoria (astúcia), devotamento
aos amigos e ódio aos inimigos.
No fim da Idade das Trevas, eles eram otimistas, convencidos de que
a vida merecia ser vivida por si mesma, e não viam qualquer razão
para considerar a morte como uma libertação feliz.
Para os historiadores Philip Lee Ralph, Robert E. Lerner e Standish
Meacham (World Civilizations, Their History and Their Culture, p. 94.
Paperback – jan. 1997), os gregos rejeitavam a mortificação
da carne e todas as formas de abnegação que pudessem implicar
frustração da vida. Humanistas, preferiam o material ao
extraterreno e ao sublime.
Rio de Janeiro, 20 de janeiro de 2008.