A sociedade constitui-se de pessoas, que são indivíduos
do tipo racional e humano, com sua profundidade e seu mistério
inconfundíveis.
A pessoa é a base da sociedade. Para Tomás de Aquino (1221-1274),
é “o que há de mais perfeito em toda a natureza”
(persona significat id quod est perfectissimum in tota natura, scilicet
subsistens in rationali natura – S. th. I, 29, a. 3 c.). E por
quê?
Em primeiro lugar, porque a pessoa é um ser inteligente, que
vai descobrindo a verdade pelo raciocínio ou pelo seu pensar.
Ora, a faculdade de pensar confere enorme dignidade ao ser humano, como
nota o filósofo francês Blaise Pascal (1623-1662):
“Pelo espaço o universo me abarca e me traga como um pontinho.
Mas pelo pensamento eu abarco o universo” (Pascal, Blaise, 348
Roseau pensant: Ce n’est point de l’espace que je dois chercher
ma dignité, mais c’est du règlement de ma pensée.
Je n’aurai pas davantage en possédant des terres: par l’espace,
l’univers me comprend et m’engloutit comme un point; par
la pensée, je le comprends).
A capacidade de pensar ou de conceber noções universais,
definições e concatená-las entre si provém
do fato de que no homem existe mais do que matéria; existe um
princípio vital ou alma espiritual que, com o corpo, forma um
sujeito único de todas as ações. Por seu pensamento,
a espiritualidade da alma humana torna o homem imagem e semelhança
de Deus (Gn 1, 27) e confere-lhe a sua dignidade própria.
Do fato de ser racional, segue-se que o homem é livre ou tem
o domínio sobre os seus atos; pode decidir soberanamente diante
de várias possibilidades, à diferença dos animais
irracionais, que são determinados pelo instinto a agir de tal
ou tal modo.
Se é livre, a pessoa é responsável. Deve assumir
os direitos e deveres decorrentes de suas opções; não
lhe é lícito fugir disto e atribuir sistematicamente aos
outros a responsabilidade de êxito e fracassos.
Ser pessoa implica também ter consciência... consciência
psicológica (estou lendo e sei que estou lendo) e consciência
moral. Em todo o ser humano, há uma voz íntima que lhe
diz: “Pratica o bem, evita o mal”, princípio básico
do qual se seguem imediatamente outros: “Não mates, não
roubes, respeita pai e mãe...” É a lei natural que
assim se configura e que é congênita em todo o homem.
Dada a complexidade de sua composição psicossomática,
cada pessoa é única e não repetível; é
um pequeno mundo original.
Toda a pessoa traz dentro de si interrogações fundamentais,
pois nutre aspirações nobres que são cerceadas
por limitações várias: a fragilidade do corpo,
que adoece e morre; a fragilidade moral, que leva a falhas ou a incoerências
de comportamento. Donde provêm essas contradições?
Como podem ser compatíveis com a dignidade do homem?
Ao refletir, a pessoa tende a perguntar: De onde venho? Para onde vou?
Qual o sentido da vida? Os que não encontram resposta para tais
indagações julgam que a vida é um absurdo. Facilmente
são presas do medo da doença, da velhice, do isolamento,
da morte e, principalmente, do que virá após a morte.
O medo só pode ser amenizado ou superado pelo conforto de alguém
que ama. Ora, o grande amante é o próprio Deus, que criou
a pessoa humana não para a desgraça, mas para a plenitude
da vida.
No ser humano há o senso religioso nato. A demanda do Absoluto
ou do Bem Infinito é espontâneo em toda a pessoa.
Para desenvolver suas virtualidades e adquirir personalidade, o ser
humano precisa de contato com os seus semelhantes. E é aí
que se acha o fundamento natural da vida do homem em sociedade.
P.S.: artigo publicado no periódico Jornal da Cidade (Caxias
– MA), em 27/11/2005.